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sexta-feira, 27 de novembro de 2015




VERDADE OU MENTIRA?

Assisti no último domingo a um episodio da série Dr. House, em que um paciente com moléstia terminal, necessitando de um transplante, decidiu contar a verdade sobre seu comportamento, que ele não passava de um canalha.  Os amigos e vizinhos estavam no hospital realizando testes para uma possível doação, então ele decidiu juntar-se ao grupo e contar que havia enganado um e outro e, afinal, quase todos.  Falou que surrupiara uma grana da escola, entre outras coisas. E, um por um, todos se retiraram, visivelmente chocados.

No decorrer do episódio, o paciente não necessitou mais do transplante. Então, passou a sofrer de violenta reação alérgica aos medicamentos que eram prescritos, inclusive os analgésicos. A camada superficial de sua pele estava se soltando, em todo o corpo. Um dos médicos, enquanto lhe aplicava um medicamento, ouviu uma confissão de assassinato, onde ele mencionava que havia matado quatro pessoas.  Na verdade, o paciente tinha a compulsão de mentir devido a uma lesão no cérebro, que provocava todos os sintomas físicos e mentais. “Há mais mistérios na mente humana do que pode imaginar a nossa vã filosofia”, um pouco “clichê”... mas é assim.

Sua mulher estava sempre ao seu lado, apesar de que, no meio das mentiras todas, havia também uma que se referia a traição com uma garota mais jovem.  Fato verdadeiro, que foi comprovado pela equipe médica.  Chegando ao final do episódio, com plena recuperação do paciente e constatação de que as mentiras eram todas mentirosas.  Sua mulher pergunta sobre a garota... E ele lhe afirma que jamais a trairia.  Aí sim, uma mentira!

Ele havia confessado ter praticado fraudes, roubos e assassinatos, o que não era verdade.  Mas havia traído a mulher com a garota. Puxa, depois de tudo o que sofreram? Pode falar uma mentirinha inocente!   Será?  Ficou entendido que ela permaneceria ao lado do marido safado e ladrão, mas não suportaria a traição com a garota mais jovem.  Como pode?   Valores invertidos?

E eu me perdi pensando no assunto... Falar a verdade ou mentir?  Parece complicado para a maioria das pessoas aceitar, ouvir e até mesmo acreditar na verdade.  Às vezes, acreditar na mentira parece mais conveniente.  Estou me referindo a grandes mentiras.  Mentiras que estão na imprensa, diariamente.  Mentiras grandes e grandes mentiras...

Eu já menti muitas vezes, e já fui compelida, por força das circunstâncias, a omitir a verdade.  Ouvi algumas vezes "não diga a verdade, pode machucar”.  “Não diga a verdade sobre como pensa, poderá ser criticada”. Será mesmo?  “Dourar a pílula?”, “enfeitar a mentira com flores e adereços?”. Não é pior?  E aí? Algumas pessoas simplesmente não conseguem ficar sem mentir. Inventar histórias mirabolantes e conspiradoras. E, com certeza é assunto para a psicologia... Mentiras inocentes... Existem mentiras inocentes?  

No Facebook, por exemplo, uma pessoa qualquer publica uma fotografia ou texto e mesmo detestando, você vai lá e diz que achou... Lindo!  É uma mentira inocente?  É uma falsidade!    Provavelmente, você quer se dar bem... Ou vive através das aparências... Não somos santos e nem dotados de tanta bondade...

Eu vivi durante um período, em constante conflito comigo mesma.  Questionamentos diários, quem eu fui, quem eu era e no que me transformei... Engoli alguns sapos, que me fizeram passar muito mal... Usei a minha “metralhadora” atirando para todos os lados... e inadvertidamente acertando os falsos inimigos.  Falar a verdade ou mentir?  Encontrei o equilíbrio... Pode até acontecer de esgotar a minha paciência e lá na frente  “falar umas verdades”...   

Por pior que seja, a verdade é sempre melhor... É liberdade... E não tem preço!

Nell Morato
26/11/2015


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

CANDELABRO DE EFEM-ÉRITOS E EFEM-IRÍASIS - Manoel Ferreira Neto




Candelabro... Ipsis de vazios litterisando o alvorecer de neblinas, ads-tringências de regências e concordâncias verbalizando a distância invisível, perspectivas de nada, imagens esquecidas, inolvidadas, perscrutando o abismo do tempo, nonadas, nonsenses, se ontem houvera de ser o aqui-e-agora, raios incandescentes do sol estariam numinando o uni-verso, mas hoje o céu está por inteiro níveo, ao longe algumas nuvens escuras, hoje não é ontem, o vazio promulga e sacraliza a ausência do eterno, quiçá no crepúsculo,, não havendo mais quaisquer resquícios das ipseidades inauditas do nublamento do tempo, quando nem às custas de pincenez é possível visualizar centimentros além da ponta do nariz, as trevas iluminam os caminhos, o en-si-mesmamento sob a neblina in-visibiliza a poiética do verso-[do]-mundo, no mais re-côndito in-terstício da alma o nada espreguiça de tanta inércia, quiçá sua ec-sistência fosse o prático-inerte, mas é leitmotiv de todas as dimensões sensíveis para a etern-idade do in-finito, , etern-itude do in-finito, inda que ab-surdo, mas etern-escência do sublime, alfim a metalinguagem e metalinguística do ser, que se sonha no sonho litteris do ipsis-verbo do além, dá asas de penas leves ao vôo pelos horizontes n quereência e desejância do há-de ser no além das águas - águia do eterno -, fonte originária das passagens de por baixo das pontes, renovando-se, inovando-se, de sendo-em-sendo, abrindo espaço nos chapadões e pampas para o ser do ser na amplidão do mar, quando o azul se comunga com o níveo celeste, e todos os portos das ilusões se pres-[ent]-entificam, a viagem marítima far-se-á plena de glórias e conquistas, a-"sistência" vivenciária e vivencial da ec-esperança plen-ificará, vers-ificará a entrega verbal e re-pres-ent-éticamente sensível e trans-cendental, quando a neblina do alvorecer, em-si-mesmando os verbos defectivos do In-finito, esplende de luzes, palavras e sentidos, símbolos e signos, metáforas e sin-estesias, no soneto do Porto a verdade do anti-ser que etern-inicializa o eidos eidético e kathártico do há-de perpetuar pétalas, des-abrochando os élans da etern-dade à soleira das fontes originárias do há-[de]-vir-ser o sublime, a sublim-itude, a sublim-idade do "eu poético" que cria a vida sob os holofotes das esperanças da liberdade em questão, daquele desejo in-descritível do ser no nada, ansiedade inenarrável nas crônicas do quotidiano.


A manhã será hoje, hoje será, antes de quais amanhãs, ontem, ontem será as pers das pectivas da eidética da vida.


Vida... O perfeito procederá do imperfeito, travessias do nada, paisagens de pectivas retros des-lumbradas, de bordas e fronteiras, jornada de devaneios quê homérica decepção -, esvaece-se de antemão às revezes à supremacia do In-finito, velando e des-velando verdades, inda que sob os questionamento das futurais das dialéticas do absoluto e ab-surdo, segue a trajetória, itinerário poiético e poético das "itudes" da esperança, a última dimensão do perpétuo que pre-figura e con-figura as yalas com a cintilância das estrelas, sin-cronia e harmonia além de todas as divin-idades e divin-eusidades, nenhum deus abarca o seu eidos, que tece a morte da vida, vice-versa, com os élans das regências in-fin-itivas e con-cordâncias versais-uni, o pre-núncio da felicidade perfeita, epitáfio do nada nas pre-fundas do esquife de cabeça-pónta devido às vergonhas de não ser o grão de areia no deserto das desejâncias das trans-cendências , suprassumirem as con-ting-ências das contra-dicções entre o dia-bólico e o diá-logo, nonadas do thelos ec-sistencial.


Esperança de eternas etern-itudes e etern-idades, esperança do pleno da vida, vice-versa, esperança do verso-uno do Sublime Verbo.


Palavras... Palavras... Palavras... São apenas símbolos, signos, re-pres-ent-ações, nada dizem e tudo dizem com e de escelência. Sarcasmo, ironia, , contudo, sedento e esfomeado de ser vivido, vivenciado em todo o seu eidos, eidética, seja o tabernáculo do "ser", a semente do "Ser", o In-finito alimenta-se do silêncio entre o verbo e o ser, bebe o que o silêncio revela como se fosse vinho dos deuses, embriaga-se e, boêmio, pervaga pelos horizontes a-nunciando as "boas novas", como gorjeta dedilhando a erudita e clássica cítara, "Acrosse the Universe", a sua preferida música, "Yesterday" é só para o "Nada", pau-dágua desiludido por não viver de si mesmo, sou o que não sou e não sou o que sou, parasita consagrada do efêmero de que se alimenta. Então, quando o "nada" desvaira-se, pois o efêmero é ponte para ele, o In-finito, devaneia-se de tanta "manguaça" e sai pelos confins dedilhando as cordas de violão de oitava categoria, engrola "yesterday" e seduz a boemia do vazio, só melancolias, nostalgias, "Oh, vida!... Oh céus!...", perdido no espaço.


Palavras... Palavras... Palavras... Deixemos a prosa com o Nada, é o sábio dela, mas a vida não se resume em prosa, vai muito al´-em disso, o In-finito é o deus da poesia, pois trás em si o silêncio, o deus da linguagem inaudita, o "inconsciente divino".


"Let it be"... Deixe estar... "Yesterday" dedilhado pelo Nada é o érito das contingências. Por isto existe o "Let it be..." O In-finito haverá sempre de sussurrar a cança das Esperanças da Verdade, vão décadas, vão séculos, vão milênios, e a poiética das palavras, versos, estrofes pres-ent-ificarão a liberdade do sonho do "Ser".






Manoel Ferreira Neto

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

NIHIL SUB SOLE NOVUM - Manoel Ferreira Neto.





Farto de vendavais, naufrágios, boatos, mentiras, polêmicas, fofocas, farto de ver como se des-compõem os homens, bancários e diretores, advogados e engenheiros, políticos e delegados, farto de mim, de todos, de um tumulto sem vida, de um silêncio sem quietação. Na infância, ouvia minha avó dizer: “Estou farta de ser paraplégica. Estou farta de ficar sentada nesta cadeira dias, meses e anos, faça sol, faça chuva, faça frio”.


Tudo isso cansa, tudo isso exaure, o suor frio corre no rosto a todo instante, haja lenços para enxugar – é só ligar o aparelho de televisão em jornais: crimes, drogas, desastres de ônibus, aviões, corrupções políticas. Estou mesmo de “saco cheio” de tudo. Este sol é o mesmo sol, de por baixo do qual, segundo uma palavra antiqüíssima, os tempos são imemoriais, nada existe que seja novo. A lua não é outra lua. As estrelas não são outras estrelas. O céu azul ou embruscado, as nuvens, o galo da madrugada, é tudo a mesma coisa. Lá vai um para o fórum, defender culpado, enjaular inocente, outro para o consultório médico, prescrever receitas, este vende, aquele compra, aqueloutro empresta a juros exorbitantes, enquanto a chuva cai ou não cai, o vento sopre ou não; mas sempre o mesmo vento e a mesma coisa. 


Tudo isso cansa, tudo isso exaure. Não fosse tudo isso o suficiente, a vida é a mais velha, juntamente com os homens, tão logo a vida, de imediato o homem e todas as criaturas de Deus; o corpo dividido em três partes, cabeça, tronco e membros, o corpo dos hipopótamos, dos jegues, das galinhas, o corpo de cada um deles é o mesmo, salvo pouquíssimas aberrações da natureza. A morte é a mesma para todos: cerimonial de velório, lágrimas verdadeiras e de crocodilo, angústias, tristezas, o fechamento do caixão, quatro homens carregando-o, o enterro; ou são alimentos dos lixeiros da humanidade, em se tratando de animais


Em quaisquer ângulos que se analisem tudo é velho neste mundo sem cancelas, sem cercas de arame farpado ou liso. Os homens de vinte anos dizem-se jovens, fantasiam tudo, têm namoricos fugazes, vão aos botequins e restaurantes encher a cara, às festas para a paquera, entram na universidade, tornam-se profissionais graduados, com ou sem qualquer eficiência. Os de cinqüenta dizem-se não tão jovens, mas ainda jovens, há muita água para passar debaixo da ponte. Os de setenta, oitenta dizem-se velhos, mas não senis, caducos. Esquecem-se de que isto é visto em termos de idade, de estar habitando o mundo, não se lembram de pensar que tudo isto é ilusão, fantasia, quimera, quiçá doidura das bravas: a vida é velha, antiqüíssima. Tudo isso cansa, tudo isso exaure. 


Nada sobra: idéias, ideais, pensamentos, sonhos, utopias, angústias, tristezas, etc., etc. Ninguém pensa ou quer fazê-lo, é acumular dores e sofrimentos, tédios os mais sublimes e variados, não restando alternativa senão o suicídio em massa, no mundo ficarão só as coisas e objetos, que, ao longo do tempo extinguirão com a ação das chuvas e sol. 


Tal era a reflexão que eu fazia comigo, enquanto trabalhava na nova edição de meu tablóide O Sertão Mineiro – pensava que também é velho na imprensa bichas, viados, homossexuais, franchonas, jornalistas, colunistas, diretores. Que me diriam eles que não fosse velho? O que menos apita, quem menos importa no tablóide é o leitor, isto é, de nossa atualidade mesquinha e hipócrita, o que diria eu ser estupidez, o leitor desde tempos imemoriais gosta de escândalos, crimes, corrupções, vulgaridades, por isso sobreviveu até a modernidade, sobreviverá até a consumação dos tempos. Res-ponder-me-iam a plenos pulmões: “antigamente, a língua era usada com critério e conhecimento, não era necessário freqüentar escolas, ouvir as lições do professor, para assimilar as regras e exceções dela, quando hoje a língua não diz qualquer coisa, não tem a mínima importância, ela impede a consciência, forte ad-versária, dos problemas que estão aí a olhos cegos ou vendados, além de instituir e institucionalizar a “liberdade de expressão”, que é a febre icteróide do momento, como sempre houve, há, sempre haverá o “icteróidismo”. 


A guerra é velha, quase tão velha como a paz: guerra nas Malvinas, guerra no Vietnã, guerra no Iraque... Os próprios diários são decrépitos. A primeira crônica do mundo é justamente a que conta a primeira semana dela, dia por dia até o sétimo em que o Senhor descansou. O cronista bíblico omite a causa do descanso divino; podemos supor, com qualquer espécie de ignorância que nos habite, tipo de alienação, que não foi outra senão o sentimento da caducidade da obra. Deus dizendo, sentado em seu trono: “Agora, vivam o mesmo por todos os séculos, na consumação dos tempos a caducidade de minha obra estará por inteira re-velada”. 


Repito, que me trariam os diários? As mesmas notícias locais e estrangeiras, a mulher que matou o marido com duas facadas, porque ele se drogava e dava-lhe surras constantes, as colunas sociais eivadas de pessoa sem qualquer importância social, artística, política, científica, retratos de colunista com personalidades importantíssimas do métier cultural e artístico, com o mesmo sorriso e olhos brilhantes, dizendo na cara mesma “estão vendo como sou importante! Minha imortalidade está garantida”, incêndios, notas de falecimento de deixar caírem o queixo das sete maravilhas do mundo, uma tempestade daquelas que deixou milhares de pessoas na miséria insofismável, a crise política de Honduras, o aniversário de jovem, filha de Fulano e Beltrana, as cebolas do Egito, o carnaval do Rio de Janeiro.


Abro as páginas sem qualquer curiosidade, leio sem interesse algum, deixando que os olhos caiam pelas colunas abaixo, ao peso do próprio tédio e fastio.


Antes de continuar escrevendo este editorial, que, com efeito, não será lido por ninguém, se alguém o fizer é capaz de molhar a ponta da língua com estricnina, conseqüência da consciência do tédio de tudo, do fastio de todas as coisas, não haver modo algum de re-verter, para isso seria necessário a vida ser outra, e nunca será, faz-se mister saber a idéia que faço de um legislador, e a que faço de um salteador. O leitor perguntará: “O que têm as idéias que ele faz do legislador e salteador com o tédio e fastio, tema deste editorial?”; pergunta mais que percuciente, vale isto ressaltar e sublinhar. O legislador é o homem deputado pelo povo para votar os seus impostos e leis. É um cidadão – não indivíduo qualquer, embora seja encontrado às pencas nas câmaras – ordeiro, ora implacável e violento, ora tolerante e brando, membro de uma câmara que redige, discute e vota as regras do governo, os deveres do cidadão, as penas do crime. Advogado mais que conceituado dissera-me que de semana em semana é preciso adquirir outro livro da Constituição Brasileira, de minuto a minuto outras leis, emendas são feitas. O salteador é o contrário. O ofício deste é justamente infringir as leis que o outro decreta. Os gênios e intelectuais mesmos dizem: “lei foi feita para ser infringida” e o populacho endossa a unhas e dentes. Inimigo jumentado e juramentado delas, contrário à sociedade e à humanidade, tem por gosto, prática e religião tirar a bolsa aos homens, e, se acaso for necessário, a vida. Foge naturalmente aos tribunais, não passam na porta das delegacias, e, por antecipação, aos agentes da polícia, corre léguas e milhas deles. A sua arma é um revólver, um punhal, uma faca, pedaço de pau; para que lhe serviriam penas, a não serem de ouro? Um revólver, um punhal, olho vivo, pé leve, e mato, eis tudo o que ele pede ao céu. 


Dadas estas noções mais que elementares, imagine o leitor com que alvoroço li esta notícia de uma de nossas folhas: “Foi preso o vereador Thalis Josefino, e expediu-se ordem de prisão contra outros, por fazerem parte de uma quadrilha de salteadores, que infesta a nossa comunidade”. Acredito terem sido poucos os leitores que leram essa matéria, se é que há alguém, visto que já estão enfastiados de tanta corrupção na política.


Sim, essa mistura de discurso e espingarda – não creio seja coisa nova, até o que não existe, jamais alguém ousou fazer, é já velho: não me consta que algum vereador tenha feito discurso na tribuna com uma espingarda em mão -, esse apoiar o ministério com um voto de confiança às três da tarde, e ir espreitá-lo às cinco, à beira da estrada, nos jardins da avenida Sanitária ou da Integração, para tirar-lhes o resto do subsídio, não é comum, nem excêntrica, muito menos rara e inusitada, é única. As instituições parlamentares não apresentam em parte nenhuma esta variante. Ao contrário, quaisquer que sejam as modificações de clima, de raça ou de costumes, o regímen das câmaras difere pouco, e, ainda que difira muito, não irá ao ponto de por na mesma curul Nero e Pilatos. O leitor cai na gargalhada! Tem todo o direito de fazê-lo, não o fizesse, acabaria eu por acreditar não haver atingido o objetivo, desde que tomei da pena para escrever este editorial, identificando em todos os níveis possíveis e impossíveis, transcendentes e contingentes, o mesmo que impera, a velhice de todas as coisas e da vida mesma. O tédio também é leitmotiv de riso, só que nervoso e desesperador. 


Há alguma coisa nova de por baixo do sol? 


Senti-me fora de mim, estupidificado, bestializado. A situação é, em verdade, aristofanesca. Só a mão do grande cômico grego podia inventar e cumprir tão extraordinária facécia. A folha que dá a notícia da prisão do vereador Thalis Josefino e seus comparsas não dá conta de provável confusão de linguagem que há de haver nos dois ofícios, salteador e legislador. Quando algum daqueles vereadores tivesse de falar na Câmara, ao invés de pedir a palavra, podia muito bem pedir a bolsa ou a vida dos presentes. E nada ficaria, em absoluto, fora do seu lugar; com um minuto de atenção e agilidade se tira o relógio a um homem, e mais de um na Câmara preferiria entregar a bolsa a ouvir um discurso de justificativa da corrupção que fora a razão de haverem sido presos.


Por todos os deuses do Olimpo, caríssimo leitor! não há gosto mais perfeito na terra. A novidade está no mandado de prisão aos legisladores corruptos – jamais ouvi dizer que algum vereador de nossa comunidade tenha sido preso mesmo, atrás das grades. Foi a primeira vez que o mandado foi expedido. Fiquei triste, não com a prisão dos corruptos, não com a corrupção que realizaram, mas pelo fato de que foi uma coisa nova de por baixo do sol de nossa comunidade. 


A própria poesia perde com isto; ninguém ignora que o salteador, na arte, é um caráter generoso e nobre, e o legislador é que faz leis a favor do plágio, contra os direitos autorais, contra a liberdade de expressão e inspiração, contra a sensibilidade; re-criando Voltaire, não é negócio para os legisladores que as artes identifiquem suas mazelas e corrupções. Thalis – se é assim que se lhe escreve o nome, neste sentido a liberdade é total e absoluta, pode-se-lhe escrever Talis, Thális; aliás, já vi, li nota de falecimento com o nome da pessoa completamente distorcido: Maria Elba Lacerda se tornou Maria da Silva Lacerda, uma mulher que não se casou, não se divorciou, não teve filhos, não teve netos e bisnetos, quando tudo isso na vida dela aconteceu – pode ser que tivesse ganho um par de galochas de grife a tiro de espingarda; mas estou convencido e persuadido que proporia à Câmara uma pensão à viúva da vítima. São duas operações di-versas, e a di-versidade é o próprio espírito grego. Adeus, minha ilusão de instante de mostrar aos homens o tédio de tudo que há no mundo, a velhice da vida, dos sistemas, das idéias, ideais, pensamentos!


Tudo continua a ser velho; nihil sub sole novum.


Nem sempre res-pondo por papéis velhos, por matérias e artigos velhos; mas aqui está um que parece autêntico; e, se o não é, vale pelo texto, que é substancial, cabendo ao leitor apenas ler não com os olhos da razão e da galhofa sem limites e fronteiras, mas com a sensibilidade. Se amanhã, depois de lido esta matéria, a população resolva vez por todas tocar fogo no prédio da Câmara, não sou eu o res-ponsável, o culpado, enfim tudo isso é de tempos imemoriais. 





































































































ABYSSUS ABYSSUM INVOCAT - Manoel Ferreira Neto.





Aqui está uma obra que há-de ser relida com apreço por todos os séculos e milênios, ultrapassando a consumação dos tempos – as coisas e objetos dis-cutirão, an-alisarão, in-terpretarão, buscando com-preendê-la, entendê-la, apresentando-a ao mundo, ouvindo seus senões, conselhos, sugestões de bases e raízes em que lhe mergulhar a profundidade; os homens doutos não puderam fazê-lo, a vida não lhes dera esta oportunidade, chance, chegou ao fim, então a incumbência de de-cifrá-la, des-trinçá-la, des-carná-la, ficou a cargo das coisas e dos objetos, pois que a profundidade é imensa, e não poderia ser esquecida; quando houverem homens de novo no mundo, será a pedra de toque para outras real-idades, sonhos, utopias. 


O autor que ocupa lugar eminente, nesta comunidade sertaneja, na crítica dos valores, na arte de destilar os ácidos contra as hipocrisias, farsas, falsidades, nas aparências de todas as categorias e laias da modernidade e atualidade, também enveredou um dia pelo olvidamento delas, buscando aperfeiçoar a sua arte, esclarecer mais dignamente as suas idéias, deixar transparentes os pontos de vista, opiniões, ideais, vontades e desejos, já que as críticas ferinas e ultrajantes não surtiram qualquer efeito, numa linguagem das mais chinfrins – não encontrando outra que abarque os seus interesses e objetivos -, tornaram-se conversa-pra-boi-dormir, parábola-para-jeque-abanar-as-orelhas; ouviu de todos que se julgava ele o mais perfeito dos homens, nasceu isento do pecado original, os gênios de todos os séculos deixaram a desejar com a sua inteligência, cultura, intelectualidade, tornou-se antipatizado por todos. Alguns de seus contemporâneos e conterrâneos, encontrando-se com ele pelas ruas, atravessavam a rua, avenidas, paravam não sabendo se seguiam, se voltavam, pois que as suas críticas e ironias surgiam frescas na mente, chegando até a passarem a mão na cabeça, a fim de se certificarem se não esqueceram o digníssimo chapéu de coco em casa, no rosto para sentirem se a máscara continuava bem ajustada, se já não apresentava algumas rugas. 


Já era tempo de dar às críticas outra e melhor edição, a repetição indiscriminada das coisas torna-se falta de criatividade, de inspiração, de observação dos outros horizontes e uni-versos da vida – e, sendo a arte eterno des-afio, tal despautério não pode mesmo acontecer, correndo o risco, acontecendo, de ser esquecido por todo o sempre, a tão almejada imortalidade acabou virando mortalidade das bravas, e a obra inscrita no Index Librorum Prohibitorum, não queimada em praça pública, mas mofando no quarto de bugigangas literárias das bibliotecas. 


Fora um sono bem agitado deste autor – agitadíssimo mesmo – pleno de pesadelos dos mais escalabrosos, impossíveis de serem descritos com rigor, seguindo-lhes a confusão que lhes é própria e característica. Acordou de supetão, dir-se-ia até que isto nada mais era que tentativa de escapar deles. Levantou-se. Fora até a cozinha tomar um gole de leite frio, o que sempre ajudara o autor a reconciliar o sono. Sentou-se na poltrona da cozinha, acendeu um cigarro. Ficara lembrando-se dos vira-latas da rua de sua casa, magros, com as costelas salientes, como se houvessem engolido arcos de barris. Os urubus que pousaram naquela tarde nas árvores, alguma vez baixando ao solo, andando com o passo ritmado de anjos de procissão. O cigarro acabou. Apagou a luz. Retornou ao quarto. Deitou-se, tentou dormir, não conseguindo. Não tinha jeito mesmo, o jeito era levantar-se, ir para o seu escritório. Em sua mente, apenas algumas imagens dis-persas e ad-versas dos pesadelos. Talvez pudesse ad-vir inspiração para um novo texto – não por intermédio dos pesadelos; como iria escrever sobre algo de que não se lembrava? Se reunisse as imagens que estavam frescas em sua mente, seria obra em absoluto sem pé e nem cabeça, ilegível, ininteligível. 


Havia, mui recentemente, coisa de três dias, feito cinqüenta e seis anos; era-lhe comum, desde que se entendeu como homem dotado de “inteligência incomum”, como político de suas relações pessoais havia dito com re-conhecimento e generosidade, nesta época acontecerem pesadelos constantes, só terminando no início de setembro, visto aniversariar-se no início de agosto, vinte e um dia de pesadelos. Estava explicado o que estava havendo com ele. Consciente, as coisas mudam inevitavelmente. 


Por três horas a fio e pavio, olhos fixos na página branca do computador, buscou idéias, espremeu os miolos, nada conseguira. Os pesadelos arrancaram-lhe não só a inspiração, arrancaram-lhe os sentimentos, emoções, estava por inteiro vazio, só a carcaça sentada na poltrona, e não há quem apresente argumentos contrários, ad-versos, para o fato de que nenhuma carcaça pode transcender-se, tornar-se letras, tornar-se obra de arte, ossos e carne não compõem obra de arte. 


Apagou a luz do escritório. Fora deitar-se. Pensara, passando pela cozinha para outro copo de leite gelado, tomar um comprimido de Dramin para dormir, não o fizera, contudo. Dormiria, com efeito, gastou muitas energias em busca da divina inspiração para novo texto, fatigou-se. Deitou-se. 


Enquanto esperava o sono, experimentou pensar em outras coisas, as que fazem um homem dormir tranqüilo, sereno. A floresta e a água envolvem e acabrunham a alma. São milhões, milhares e centenas os seres que vão pelos rios e igarapés, que espiam entre a água e a terra, ou bramam e cantam na mata, em meio de um concerto de rumores, cóleras, delícias e mistérios. A natureza estira os braços num bocejo preguiçoso... de quem deixa a rede.


Antes de completar a sua idéia, tendo parado no “bocejo preguiçoso” – eu é que completei para ele por benevolência, pois que senti que no seu espírito a imagem da rede se a-nunciou, pensando eu que, não conseguindo dormir, iria estender a rede no alpendre de sua residência, deitar-se, contar estrelas - o sono tomou-lhe por inteiro.


Não teve pesadelos. Dormia tranqüilo, sereno, dir-se-ia que os anjos, sensíveis com a sua falta de inspiração de novo texto, os pesadelos escalabrosos que tivera, tomaram-lhe nos braços, e entoaram a famosa musiquinha “se esta rua/se esta rua fosse minha/eu mandava/eu mandava ladrilhar...”. E o autor, agradecido com a gentileza dos anjos, entregou-se inteiro aos braços dos anjos, à musiquinha. 


A faculdade de ver claro e largo, a arte de dizer originalmente as sensações pessoais, o autor as possuía como os principais que hajam enveredado para as críticas deslavadas das condutas e posturas dos homens, de suas mazelas e pitis. Invenção de estilo, observação aguda, erudição discreta e vasta, graça, poesia e imaginação produziram páginas vivas e saborosas – lendo-as com espírito e perspicácia, chegava-se à perfeita conclusão de que o autor divertia, fazia esquecer as dores e sofrimentos da alma, os problemas quotidianos, fazia rir com a sua linguagem cáustica, ferina, com os seus jogos paradoxais. Crítico dos mais ferinos, mas engraçado no que tangia às suas considerações dos valores e virtudes humanas, adorava espicaçar os brios das pessoas.


Sonhara que estava deitado numa rede no alpendre de sua residência, um calor de assar a carne, trincar os ossos, estava sem camisa, de shorts. Sobre o banquinho um livro aberto, não podendo eu reconhecer-lhe o título e autor, o celular ao lado. O celular tocou. Atendeu. Uma voz esganiçada, era de mulher: “Tome vergonha na sua cara, vagabundo...”. Antes de o “o” de vagabundo” ser pronunciado, a famosa res-posta: “Vá a putaquepariu, mulher”, desligando. Pensara consigo mesmo: “com efeito, é leitora a quem a carapuça de minhas críticas serviu-lhe bem, com perfeição Virou lugar-comum leitores ligarem, descascando os meus pepinos”. O seu pensamento no sonho era verdadeiro: nas ultimas três semanas, recebera ligações várias de pessoas dizendo-lhe os maiores absurdos, humilhando-o, ofendendo-o. Deixava-lhes dizer o que quisesse em silêncio, desligavam por não ouvirem qualquer revide. A esposa, diante de seus comentários, dizia-lhe: “Seu problema é não dar nome aos bois, sua arte é a indeterminação; se lhes dessem nomes, fossem personagens, as carapuças não iriam servir a todos. Servem a todos, e todos se sentem nus aos olhos das pessoas. Têm de ligar para você, dizendo-lhe tantas coisas do arco da velha”. A mulher da voz esganiçada voltou a ligar de novo, não repetindo o palavrão anterior, dizendo-lhe tão simplesmente: “Deixe-me dormir em paz. Ligue-me pela manhã, quando acordar, serei todo ouvidos. Um autor tem também os seus direitos de descanso e sono, ora essa!”


Levantou-se da rede, apanhou o livro, colocando-o de por baixo do braço direito, dando uma gargalhada daquelas, lembrando-se de alguém haver-lhe dito: “Se andar com livro debaixo do braço é ser culto, você deve ser um deus de tanta cultura”. Comentário ridículo, pois que andava pelas calçadas lendo, às vezes dando de cara com os postes de cimento armado. Fechou a porta do alpendre. Sentando-se na poltrona, colocando os pés cruzados na mesinha de centro. A esposa passou, carregando nos braços as roupas secas, perguntando-lhe o que estava havendo, pareceu-lhe bastante sorumbático: “Mais uma das ligações ofensivas”. Nada respondeu. Abriu o livro, lendo a seguinte passagem: “No dia seguinte, ainda vinha rompendo a manhã, já eu me achava de pé. Entrou no meu quarto um escravo com um grande copo de leite tirado minutos antes. Em poucos goles o devorei”. 


Levantou-se num movimento só. Atravessou a sala de visita em passos largos. Tivera uma idéia supimpa. A caneta estava sobre o banquinho ao lado da cama, havia-lhe deixado lá sobre uma agenda. Precisava de folha de ofício. Iria escrever o que, sui generis, havia-lhe a-nunciado no espírito. Escrito, afixaria no portão de sua residência, quem passasse iria, inevitavelmente, ler. Não mais seria incomodado por ninguém. Difícil saber se o que lhe surgira fora inspirado nalgum escritor, filósofo, pois que eles é que são mestres em tais frases de efeito. Pareceu-me que havia se inspirado em Schopenhauer num escrito colocado na porta de seu quarto, frente a uma escadaria, “Não perturbe, estou trabalhando”. Dizem até que uma mulher, daquelas bem ousadas, bateu na porta; Schopenhauer abriu e jogou a mulher escada abaixo; ficara paralítica; todo mês ele tinha crises de depressão, devido ao fato de ter de pagar-lhe pensão por invalidez. Não era homossexual, mas detestava mulher, chegara até a dizer, visto que a mãe escrevera um livro, que, se ela fosse um dia reconhecida, não seria por seu livro, mas por ser mãe dele. 


Apanhou a caneta na alcova. Voltou à sala de visita, abriu uma gaveta do móvel, tirou uma folha de ofício. Sentou-se na mesa. Escreveu em letras garrafais: “Se perguntarem por mim, digam que fui pentear macaco, quando eu voltar apanho o pente”. Enquanto escrevia cada palavra, ria. Os olhos brilhavam. Achara a supimpa solução para as ofensas que vinha sofrendo nas últimas semanas.


Acordara. A esposa havia acabado de abrir a porta, fora apanhar o colar, era sábado, iria sair. 


- Acordou, meu amor?


- Encontrei a tão esperada inspiração para um novo texto.


- Que bom, querido!...


- Diferente de tudo que já escrevi. Digo-lhe mesmo que jamais será esquecido, viverá por todos os séculos e milênios. Vou dar trabalho aos críticos e doutos para entenderem e compreenderem o que mesmo eu quis dizer. E jamais chegarão a fazê-lo.


- Mas que inspiração é essa?


- Simplesmente: “Se perguntarem por mim, digam que fui pentear macaco, quando eu voltar apanho o pente”.


- Você é realmente crítico...


- Acredita que sonhei com isso?! Sonhei com esta frase.


- Então aproveite a inspiração, escreva...


- Será agora mesmo...


Levantou-se. Foi para o escritório. 
















































































CORCOVADO DE ESPERANÇAS - XXI – SILÊNCIO ABRAÇA OS HOMENS - Manoel Ferreira Neto.




Amplexos do silêncio infeliz...


É, sobretudo, no infortúnio que o silêncio abraça os homens. Abraço de compreensão e entendimento, promessa transparente de libertação – suficiente a Fé. De ternura, certeza nítida de aconchego, SONHO de traduzir as emoções – bastante o DESEJO pela vida. De solidariedade – cabe a entrega absoluta ao AMOR.


Pequenas palavras surgidas de súbito, em princípio, sugerindo que foram-são pensadas para outras virem à soleira, dizerem suas verdades, modificando a linguagem, o estilo, beleza, re-velando perspicácia, acompanhada de vivacidade, para mergulho profundo. A palavra fora “talvez”. Talvez, no infortúnio, amplexos de silêncio infeliz; nos amplexos do silêncio, o infortúnio.


O que é isto de, talvez, os que mais conhecem os amplexos do silêncio fá-lo sob que águas caladas e pró-fundas?!... Descansa a tênue camada da vida quotidiana. Disse-o antes. De imediato, surge em cena dúvida, desconfiança. Talvez quem conhece sabe o que significa, o valor que possui, contudo, re-colhendo-as no íntimo, com as aparências e re-presentações estranhas a um olhar de soslaio, perdendo-as; quanto aos outros homens, não o sabem, o desejo e sonho são de torná-las reais, o único clima saudável de prolongar-se por dias e noites, adentro sabe lá o quê, isto sim acolhe as águas e os silêncios; a intenção é justamente despertarem para esta busca, sentir-se-ão felizes.


Não é que nunca tenhas percebido os amplexos do silêncio infeliz em momentos de problemas enormes; problemas que, de todo, envelavam qualquer promessa de alegria, qualquer esperança em um futuro. Não restou alternativa senão a de mergulhar neles, re-pousando a face nas mãos em concha, e assim pudestes constituir esta verdade: “É no infortúnio que o silêncio abraça os homens”. Desde então, em horas difíceis, entregais-vos à reflexão, nos braços do silêncio, retornando deles apta a seguir jornada. Senti-vos viva, forte. Quem sabe ouvir os sinos silenciosos do Natal?!..., prenúncio seja de compreensão de que vos cabe espiritualmente.


Só diante deste pensamento de “no infortúnio o silêncio abraçar os homens” pudestes perceber não ser o silêncio que se sente infeliz, é o homem, e os abraços são que o torna feliz outra vez, pronto para continuar o itinerário à busca do sublime e do eterno. Mas não seria verdade também que o silêncio possa se sentir infeliz frente às situações, arbitrariedades, erros do homem consigo próprio? Aí, as vozes todas que habitam o silêncio calam-se, sequer um sussurro, cochicho, murmúrio.


As tristezas fazem-vos agora sorrir e não sabeis o motivo de, com este amor todo, do fundo da memória, chegar-vos a imagem de um prado, ladrilhado de ardósia. Escapam á compreensão do olhar. Se a consciência reouver um instante de perspicácia, os contornos perdem-se.


Quer dizer que, às vezes, quando a carga da vida se torna demasiado pesada num mundo tão impregnado de intempéries, procura voltar-vos para os abismos deslumbrantes da alma, onde tantas emoções novas e inocentes perduram-se intactas. Conhecei-as bem demais para ignorar que são emoções eleitas, onde a contemplação e coragem podem equilibrar-se, onde o in-verno e o in-verso podem comprazer-se de virtudes plangentes e exaltar a força de seus encantos.


Em toda a minha carreira procurei desenvolver algo que julguei ser importante ensinar, orientar são uma responsabilidade minha, porque o meu objetivo principal é ajudar outras pessoas a se conhecerem, a buscarem outros modos e estilos de vida, desejando antes de tudo a autenticidade. Não há razão alguma para fazer os outros se sentirem em dívida ou para aceitar os seus agradecimentos, porque o que realmente estou fazendo é cumprindo o meu próprio voto. Quando como a minha própria comida, não há nenhuma razão para agradecer a mim mesmo, porque comer é algo que preciso fazer.


Que seria esta vida, se é que de vida merece o nome, sem os prazeres da volúpia? Oh! Oh! Vós me aplaudis? Não esperava por isso. Já vejo que não há aqui nenhum insensato que não possua esse sentimento. Sois todos muito sábios, uma vez que, a meu ver, a loucura é o mesmo que sabedoria. Podeis, pois, estar certos de que também os estóicos não desprezam a volúpia, embora astutamente se finjam alheios a ela e a ultrajem com mil injúrias diante do povo, a fim de que, amedrontando os outros, possam gozá-la mais freqüentemente. Mas, admitindo que esses hipócritas declamem de boa fé, dizei-me, por Júpiter, sim, dizei-me se há, acaso, um só dia na vida que não seja triste, desagradável, fastidioso, enfadonho, aborrecido, quando não é animado pela volúpia, isto é pelo condimento da loucura. 


É inútil lamentar-vos da tristeza, da solidão do espírito, basta trabalhar para vós, para vossa felicidade, e todo o esforço é para que a solidão e tristeza resistam aos ventos do mar pela virtude da brancura e da seiva. Porque esta é que preparará o fruto do in-verno no mundo.


É preciso descer ao silêncio da memória e começar a garimpar diamantes perdidos. Um dia algo foi bom, verdadeiro, a luz do sol re-fletiu na pedra de diamante e o re-flexo deixou-vos perplexa... Achais que o foi, pois ninguém coloca alguém a seu lado acreditando que o faria infeliz, embora possam querer e desejar o mais profundo, ninguém traz alguém para dentro de sua intimidade achando que iria sofrer. Estais carente de abraços. Se desejais que algo melhore, vós mesma tereis que começar esta trans-formação; a mudança começará por si. 























CORCOVADO DO SILÊNCIO XX – IN-VERNO E VENTOS GELADOS Manoel Ferreira Neto





Não me digais que eu mesmo estou a renunciar o meu castelo de cristal muito cedo, pela única e exclusivíssima razão de não vos mostrar a língua. Que me importaria se as coisas não se arranjarem assim, o castelo de cristal não seja instalado, tendo de alugar um cantinho no chiqueiro, até com buscas de papel nas narinas ou algodão para não morrer cedo devido ao odor fétido, isto se for possível chegar lá.


Digo-vos que durante cinqüenta anos, permaneci silencioso no meu canto, cuidando disto e daquilo, tentando desvencilhar-me de inúmeras dificuldades, mas devido a sair do buraco, falo, falo, falo...


Se vim para dizer alguma coisa, então que seja para transformar, melhorar... Caso contrário, não mereço nem o chiqueiro, e o pior de tudo é que sou eu quem respondo pelo não-merecimento.






“Quanto mais eu ando


Mais vejo estrada


Mas se não caminho


Não sou é nada


Se tenho a poeira como companheira


Faço da poeira o meu camarada”






Eis a sábia e inteligente sagacidade de minha alma: não oculta o seu in-verno e os ventos gelados vindos de entre as montanhas; nem sequer omite a sua primavera que vislumbra o olhar e os mais recônditos sítios do espírito. Sábia e inteligente astúcia de meu olhar: re-vela as paisagens e cenário dos jardins floridos, da grama no alto da montanha verde e viçosa, armazena na sensibilidade e memória as cores as mais variadas e deixa os sentimentos se aflorarem inspirados pelo doce aroma principalmente das rosas e crisântemos.


Sem me enveredar pelas alamedas do romantismo, olho as coisas e sinto-as na intuição e percepção de uma vida que realmente existe, e seu dom e merecimento são a felicidade -, e porque não o devaneio compacto? Ando feliz, reflexivo, sentindo-me homem nas entranhas, e acredito que a Vida é o Amor que tanto sonho. Idílios compactos para os ímpios e, aliás, só os ímpios muitas vezes são capazes de sonhar e realizar seus sonhos por acreditarem em suas palavras, tornaram-nas uma apresentação e também uma representação da longa viagem noite adentro, a carruagem passando por lugares íngremes, os vaga-lumes acendem e apagam suas luzinhas próximo à janela, e sigo a viagem para o infinito, para a eternidade, levando na algibeira as verdades que fui colhendo através das experiências e dificuldades; sempre, conscientizei-me de que necessitava acender uma vela à janela, após a real-ização de meus devaneios e atitudes ímpias com uma verdade que colhi, fruto da contemplação, esta sede de conhecimento.


Sui generis fora precisar passar na loja de produtos veterinários de Iliara Jasmine, estando o rádio ligado, tocando As long as I can see the light, Creedence Clearwater Revival, que tantas vezes ouvira na adolescência, chegando a colocar no crepúsculo uma vela acesa atrás da vidraça da janela, cantando a música. Disse “sui generis” porque estou relendo a missiva de dias anteriores a hoje, e antes de haver ido à loja, ouvido sem menos imaginar essa música,a tendo, então, essa intuição de registrar para que saiba como está sendo escrita essa missiva, os detalhes que entram no jogo não sei se para elucidar ou se para confundirdes na in-terpretação.





O verso interessante que guardei na memória para registrar aqui fora: “Put a candle in the window/Cause I feel I´ve got to move”, isto é, “Ponha uma vela na janela porque sinto que tenho de partir...”. Se fosseis vós a dizer-me isso, com efeito, iria sentir-me perdido, confuso, enfim, não ireis mais ouvir-me, não poderia continuar essa missiva, após tantos dias de esforço e dedicação. Se fosse eu a dizer-vos, quem sabe pedisse para esperar um pouco, pelo menos até que termine, decida espairecer um pouco as idéias em Coriaçu do Norte, imbuindo-me de outras situações e circunstâncias. Seria até interessante viajar por uns dias, retornando continuar a escrever-vos, teria muitas situações e circunstâncias a serem acrescentadas, os colóquios com os amigos deram muitos requisitos interessantes a serem abordados.

PERPÉTUO CREPÚSCULO DE IDÉIAS - Manoel Ferreira Neto.








Não é capricho da imaginação, vaidade da inspiração; aliás, sempre presentes, sem elas qualquer arte é impossível – diria até que a vida sem elas é insossa. Não é aberração do espírito – conheço aberrações da alma, não consigo imaginar uma do espírito, mas respeito o que se me a-nuncia -, que faz levantar gritos de regeneração humana.


São as circunstâncias – tantas que esbugalham os olhos -, são as tendências dos povos – meu Deus! quantas, maiores que a população mundial, bem maiores se considerar as últimas tragédias, tsunami, abalo sísmico na Itália, desastres aéreos -, são os horizontes rasgados neste céu de séculos que implantam estas no espírito.


Quem enxergasse na minha idéia uma idolatria, apologia pelos jornais, tablóides, teria concebido uma convicção parva. Argumentando desde modo, mostro pré-ocupação com a aniquilação do livro diante do jornal – já pensou, leitor, aniquilar os livros diante destes jornais de vinte e cinco centavos, mas os homens apreciam o vazio de tudo, conversas só as fiadas para passar o tempo. Não me venha dizer que estes jornais só os incultos, o povo lêem, que vou cair na gargalha, deitar no chão e balançar as pernas, pois que conheço homens cultos, cultésimos, que lêem.


O talento sobe à tribuna comum; a indústria eleva-se à altura de instituição, e o titão popular, sacudindo por toda parte, até onde jamais se poderia imaginar, conceber, os princípios inveterados das fórmulas governativas, talha com a espada da razão o sudário dos dogmas novos. Preparar a humanidade para saudar o sol que se põe, que se vai pôr – eis a obra das civilizações modernas.






“À noite, a sombra funda, o ermo grande e mudo,


Tudo dentro era negro e negro em torno tudo...”






Quiseram fazer-me oscilar entre as sentenças mal concebidas, as frases insossas, assim agradaria os leitores.


Não com-preendo, não entendo, em verdade penso ser um despautério dos mais jumentados, o crítico sem consciência é ininteligível, então quando ouço as críticas do quotidiano, chego quase a cair duro e fedendo; quem as pronuncia não sabe discernir o que é isto, encontrar agulha no palheiro, passar o jegue no fundo do buraco da agulha, fofoca deve ser considerada, neste caso, como a oitava maravilha dos ócios humanos. A ciência e a consciências, eis as duas condições sine qua non para exercer a crítica. Para o povo, mesmo para os intelectuais de plantão, criticar é negligenciar. A crítica verdadeira é útil, a crítica que engrandece e amadurece será aquela que, ao in-vés de modelar, modular as suas sentenças por um interesse, quer seja o interesse do ódio, do cinismo e sarcasmos deslavados, quer o da adulação e sim-patia, procure re-produzir os juízos da consciência.


No início das críticas às obras e autores de nossa atualidade, sobre quem já era conhecido, eles mesmos diziam de si para si: “seu interesse é saber que foi com sua pena que nos tornamos re-conhecidos”. Mandei-lhes a famosas bananas sartreanas, critiquei obras de quem nunca ouvira falar, nem sabia se era inteligente, e foram com estas críticas que o sol raiou pela manhã, pôs-se no crepúsculo, a lua iluminou as minhas noites.


Aquela coisa – e quando é dita sem papas na língua, com efeito, não as tenho: diretores de jornal e tablóide só sabem que existe espaço para propaganda, as matérias visam as politiquices sem sal e tempero, os sensacionalismos sem eiras e beiras, o incentivo ás violências inúmeras, instigação aos crimes absurdos, tudo isto esgota edições em tempo recorde, mesmo que seja distribuídos, comercializados a leite de jumentos, noutras palavras, de graça.


Chegamos já a estes crepúsculos da imprensa escrita, a estas tristes conseqüências; a leitura verdadeira, a que conscientiza, culturaliza, intelectualiza, amadurece, abre leques de evangelização e espiritualidade, assim são as letras, escafedera-se sem qualquer chance de retorno ou de resgate; encontra-se, em nossa modernidade, nos tablóides atuais, temas, assuntos, idéias que alienam e analfabetizam os homens, fazem verdadeira lavagem cerebral. Ainda penso, sem justificar ou passar pano quente na cabeça, que a res-ponsabilidade não deve ser debitada na conta dos tablóides, mas na dos leitores que consentem. Sendo mais percuciente, a responsabilidade é de ambos.


A crítica deve ser sincera – seria que estivesse denegrindo a imagem dos tablóides e jornais sem quaisquer noções ou conhecimentos de suas realidades particulares? Seria que negligencio, porque tomei nojo, asco, comichão da imprensa escrita, tachando os colunistas de imbecis e idiotas juramentados -, sob pena de ser nula, chula, cula das ridis.


Jamais me fora dado defender nem os meus interesses pessoais, nem os alheios, enquanto, ao longo de cinco anos consecutivos, mas somente a minha convicção, e a minha convicção deve formar-se tão pura e tão alta, que não sofra a ação das circunstâncias externas. Pouco me importei, nas criticas a obras de alguns indivíduos, com as sim-patias e anti-patias dos outros, um sorriso solidário, complacente, se pode ser recebido e retribuído com outro, não deve determinar, não deve solidificar, não deve concretizar, como a espada do digníssimo e egrégio Breno, o peso da balança – nisto de balança, lembra-me o jornalista Hugo de Lara, quando dizia que a cultura pesa, referência aos papeis de obras literárias, se se quiser exemplo de algo que pesa é só pensar em papeis e livros; acima de tudo, do sorriso e das desatenções, está o dever de dizer a verdade, e, em caso de dúvida, antes silenciá-la em absoluto e com prepotência, sinônimo de orgulhos e vaidades, que negá-la à luz de verbos e cânticos perpétuos.


Com tais princípios, desde que escrevera a primeira crítica, de uma obra que se tornou o sudário de minhas letras, compreendo que é difícil viver, “viver é muito perigoso” como diz Rosa – imbecil de chapéu de coco e galocha escreveu artigo, pequeno num tablóide, mostrando e de-monstrando seu alfabeto ser de poucas e mínimas letras; a crítica não é uma profissão de rosas, samambaias, e se o é, é-o somente no que tange à satisfação íntima de dizer a verdade.


Na manifestação dos meus juízos, referindo-me a todas as críticas que escrevi nos tablóides de nossa comunidade, não me deixei impressionar por circunstâncias estranhas e esquisitas – mesmo sabendo que um dos autores objetos de minha crítica copiou parágrafos inteiros de Antônio Sacconi – às questões literárias, há-de cair em seqüência na contradição; e os juízos de hoje serão a condenação das apreciações de ontem. Sem coerência perfeita, as sentenças perdem todo o vislumbre de autoridade, e abatendo-se à condição de ventoinha, de Blowing in the wind, Bob Dylan, movida ao sopro de todos os interesses ideológicos, de todas as picuinhas literárias e filosóficas, o crítico fica sendo o oráculo dos aduladores.


Dizendo, ninguém acredita, mas em todos os anos, escrevendo textos literários e críticas, jamais houve entre os diretores e eu conversas cujos assuntos fossem crítica literária, fosse poemas publicados na edição. Nem dizer: “nossa, o poema de fulano é muito bom, estava inspirado”. Não sendo quem escrevia críticas sobre algumas obras, ninguém o fazia, ninguém o faz. Em verdade, as artes não são divulgadas, não há qualquer tipo de interesse da parte dos tablóides; quando publicam, pensam estar fazendo um grande favor para os amigos.

























RESQUÍCIO DE MONTANHAS NA NEBLINA - Manoel Ferreira Neto.



 

Jamais havia visto paisagem tão linda, logo que acordei, olhando através da janela a neblina que cobria as montanhas, havia apenas sombras escuras, indicando-as. Paisagem esplendorosa. Três horas e meia após, a chuva continua caindo com todo o resplendor, o tempo fechado.

Por instantes não muito longos, pois o desejo era tomar o café da manhã, contemplei a neblina, e no íntimo senti que não poderia haver dia melhor, apesar de haver dor incutida no peito, dor que o tempo foi se incumbindo de serenizá-la, mas permanecendo no seu cantinho, envolvida com a esperança, enfim só ela pode amenizar os sofrimentos e dores todos com que se vive, com que vivo eu. Ao contrário, com esta chuva, neblina viveria a felicidade, prazer, satisfação. Por que não? Às vezes, torna-se algo fácil e simples transformar o que vibra no peito, deixando os olhos vagarem no espaço e tempo à procura de futuro e ponte para o futuro. Redimir os sofrimentos e transformar tudo, só isto é a redenção para mim.

Quando, ao deixar a minha solidão, contemplando e vislumbrando o silêncio que se me apresentava como a porta de entrada de espécie de canteiro onde todas as sementes que semeasse de imediato dariam frutos viçosos e lívidos, podia comê-los, chupá-los, sentir-me-ia realizado, mesmo que alguém dissesse não poderia chupá-los, comê-los, revelar-se-iam amargos, comeria e chuparia sem qualquer consentimento de quem quer que fosse, cruzava pela primeira vez a ponte, acreditei com as pequenas forças que restavam em meu coração, as ínfimas esperanças que habitavam espírito e alma, não deixei de sonhar e acabei por dizer a mim próprio: “Isto é o futuro. Futuro do tamanho de toda a vida,  utopias”. Com o tempo aproximava-me ainda mais, e por trás da vida e utopias movia-se algo, diria serem as primeiras revelações de feto que já estava constituído, frágil e simples, que me causava compaixão, solidariedade.

A querida-amada-e-doce-companheira-e-esposa costuma dizer que vivemos mui bién em nossa casinha, envolvidos em amor recíproco, atingiremos a felicidade e amor. Acredito e creio nela, aliás, fora quem despertara em mim o futuro, os sonhos e todas as utopias do mundo. Homem necessita ser amado para descobrir a vida. Mulher precisa ser amada para despertar nela sonhos e utopias todas. Sonhos e utopias  revelam a vida, espírito, realização do Reino de Deus.  

Olhando através da lente de óculos mui pequenos, caindo na ponta do nariz, aliás, é assim que se encontram no rosto, enquanto crio e recrio esta ponte que atravessei, segui a caminhada do campo, ainda podia reconhecer vida repleta de realizações, felicidade, amor e, sobretudo, esperança, também alma solene e pomposa que vibrava nos labirintos do ouvido, este que me envia vozes diversas e frágeis que me dizem ser necessário viver o futuro no presente e o presente no futuro.  

Presente, passado, futuro sobre a cidade diamantinense... ai, meus amigos! Eis o mais agradável de viver, a chuva caindo, neblina cobrindo as montanhas, alegria sem limites, ainda mais creio que nasci para o inverno, primavera, chuva; não viveria contente e feliz não fossem estes dias que manifestam o íntimo, recônditos da alma, espírito, emoções e sentimentos são puros e inocentes. Todos os sonhos e utopias restituem a visão da vida além do que é quotidiano e, por vezes, além da imaginação, contemplo na terra demasiadas coisas boas e maravilhosas.

Amigos, não sei bem o que lhes  perpassa a alma e espírito, lendo e contemplando estas palavras, mas posso imaginar que pensam ser fácil estar no escritório sozinho, aparelho de som ligado, luz acesa, criando, enfim a imaginação e intuição em união com os desejos e esperanças contribuem para me sentir homem no mundo, para sentir que tudo é ainda possível, salvo as impossibilidades que se apresentam vez em quando, mas são necessárias para que haja a luta, desejo, vontade, querer... Mas no quotidiano de nossas vidas e lutas a coisa não é bem assim, há sim fatores que tornam as realizações algo de longo fôlego, tarefa árdua. Com a pena em mão, o mundo se torna fácil, a vida se torna brincadeira de criança, brincadeira inocente, ingênua. Por mim, não penso assim. Aliás, fiz das letras os sonhos mais recônditos da alma, e até o presente me sinto realizado, pois que posso dizer e expressar o que me vai no corpo, espírito, alma, libertar-me, redimir-me. Desculpem-me, se plagio o Beatle John Lennon, mas sou sonhador. Mas é preciso sonhar com o corpo,  alma, espírito.

Além disto, que se refere a mim, posso imaginar que perpassa em seus espíritos e almas que sou homem quem deseja a humanidade se encontre, se redima de todos os sofrimentos, se realize, crio imagens, crio pensamentos e idéias, crio sonhos e utopias, esperanças e desejos, mas a vida não se transforma com as letras, entrelinhas delas, mas sim a vida é criada de sofrimentos e dores. Desperto em vocês sonhos, mas este sonho muitas vezes não pode ser realizado, e isto o que mais angustia e desespera, pois não podem encontrar nada de graça. Sim, meus amigos!... Desejo apenas que vocês pensem, meditem, contemplem bem o que é melhor para vocês, o que melhor se adapta à realidade de cada um, o que lhes dará a felicidade e  prazer. 


Todos os pensamentos e idéias tendem a iluminar os fragmentos do futuro, desse futuro que os meus olhares às vezes de soslaio, por vezes de esguelha, até de banda vez em quando, contemplam e sondam, e estes pensamentos e idéias unem em uma só coisa o que é desejado, intuído, percebido, vivido com todas as forças reunidas. 

ÀS PRÉ-FUNDAS, NONADAS DE OURO - Manoel Ferreira Neto.




Se é algo que aprecio, rendo graças e tributo, é a fórmula, séria, jocosa, sarcástica, seja como for, como aprouver alguém sentir nas pré-fundas, A apreciação é maior, se for sarcástica, jocosa, faz-me rir, sentir-me mais sarcástico, quanto mais podendo dela utilizar na vida quotidiana para destilar ácidos críticos. O amor incondicional pelas fórmulas começou com a idade de seis anos, quando li Quincas Borba, Machado de Assis, três meses antes de entrar para a escola. A grande fórmula: “Aos vencedores, as batatas”.
Quincas Borba achava sua fórmula engenhosa, compendiosa e eloqüente, além de verdadeira e profunda – completaria a idéia dizendo ser extravagante, excêntrica. Achei-a, na infância, interessante, engraçada. Se alguém vencesse as dificuldades, era merecedor de três sacos de sessenta quilos de batata, por meses consecutivos comeria batatas, batendo no peito com todo orgulho e vaidade: “Venci as dificuldades, como batatas”. Se vencesse os dramas de amor conflituoso, angustiante, depressivo, era merecedor de dois sacos de trinta quilos, mas depois de comidas em vários pratos, começaria a procurar outro amor que substituísse o outro, fosse verdadeiro. Se vencesse todas as lutas por real-izar os sonhos, ideais profundos, era merecedor de tonelada de batatas, comê-las-ia por toda a vida, com direito a seis horas de sesta na rede do alpendre, o resto do dia encheria a cara de cachaça na vendinha da esquina, à noite dormiria satisfeito de cachaça e batata, sonhando com os prazeres e alegrias dos sonhos real-izados, pela manhã acordaria cantando a plenos pulmões: “Lá na venda/Lá na vendinha/É lá mesmo que tomo da boa pinguinha/Depois das batatas e da sesta”, e na hora do banho matutino gritaria a plenos pulmões para a comunidade inteira ouvir: “Real-izei sonhos profundos e queridos, sou merecedor de comer batatas e beber cachaça”. Vovó é que ficava tiririca de raiva por ouvir-me gritando essas coisas, deitado na banheira cheia dágua: “Pare de gritar besteiras, meu neto. Depois não reclame, se fracassou na vida”. Res-pondia: “Sou de família de fracassados, mas vou vencer e ainda comer muitas batatas. Vovó, ponho em prática a fórmula machadiana. Quando for escritor re-re-conhecido, vou escrever história”. Vovó ria. Aí cantava a musiquinha da pinga da vendinha.
Há quatorze anos, se não me engano, chegou-me ao ouvido que autoridade de nossa cidade havia entregue medalha de honra a uma entidade, embora dizendo que muitos membros dela, noventa e nove, vírgula noventa e nove por cento não era merecedora. Quase caí duro e fedendo com a notícia chegada aos sensíveis ouvidos – há quando penso que Deus deixou de colocar cachorro no mundo para me doar os ouvidos dele -, perguntando-me em que venceram para receber a medalha de honra. Não encontrei qualquer razão plausível ou inteligível. Foi quando cheguei à conclusão de que os vencidos merecem não batatas, mas medalhas de honra.
Já era tempo de ampliar a visão – enfim, estava com quarenta anos; até mesmo o mestre Machado de Assis iria cobrar de mim: “é tempo de re-criar ou completar a fórmula de meu Quincas Borba” -, até então só acreditava que os vencedores mereciam honras, re-conhecimentos vários, conforme aprendi com o mestre. Ambos, vencedores e vencidos, mereciam encômios, nonadas de ouro, questão de solidariedade, compaixão, enfim é angustiante saber que nada conseguiram real-izar em vida, vão morrer com dores e sofrimentos atrozes, as pré-fundas carcomidas pelas nonadas, a vida fora-lhes ingrata. Os homens dizem que os vencidos são dignos de pena, comiseração. Foi quando aprendi a ser humano.
Mas a respeito da medalha de honra que a autoridade concedeu, legou à entidade, não pensei o mesmo, achei a atitude falta de senso, fosse a única pessoa estava certo, estimulava a procurar os próprios caminhos e veredas, dizendo-lhe que tivesse fé, esperança, Deus tarda mas não falta, com esforço e perseverança poderia re-verter as inferioridades, frustrações, desinteligência e burrice. Mas conceder medalha de honra àquela entidade não era ser humano, defensor da doutrina cristã, ser compassivo, solidário, era ser inconsciente da realidade dos homens, não saber que os membros daquela entidade não eram vencedores ou vencidos, ocupavam lugares estranhos à espiritualidade deles, nada eram. Simplesmente homens inconseqüentes, oportunistas. Não fosse a autoridade amigo a quem respeito, a quem lhe reconheço posturas e condutas idôneas, por quem nutro e alimento sentimentos verdadeiros, diria com todos os pontos e vírgulas que colocava suas ideologias chinfrins.
Estava caminhando pela linha férrea, rumo à Ponte Leão, quando soube desta notícia, aliás, dois dias depois de haver sido inaugurado o Asilo dos Ensandecidos pela mesma autoridade a quem me refiro.
Aí, sim, andando, pensando, re-fletindo, meditando, cheguei à conclusão, fundamentado na filosofia de Descartes e Sartre, “cogito ergo sum”, “sou o que não sou e não sou o que sou”, que não era ser inteligente, homem digno, endeusar Machado de Assis, mas con-templar única realidade que mostra, de-monstra, inscreve na Bíblia Sagrada: “às pré-fundas, nonadas de ouro”.

Só me pergunto, treze anos depois, uma coisa: “Será que as nonadas de ouro merecem as pré-fundas”. Canto a todos os pulmões, no banheiro de minha residência: “Lá na venda/Lá na vendinha/É lá mesmo que tomo da boa pinguinha/E traço nas linhas de uma agenda/ As asnices das pré-fundas”. E a mulher grita lá da cozinha: “Pare de cantar asnada!”.        

MADRUGADA DO GALO - Manoel Ferreira Neto.


Uma e meia da manhã. Pelo que me conste, observei algumas vezes, horário de galo cantar é quatro e meia. Este imbecil me acorda cantando. Não se pode dormir mais tranqüilo e sossegado, o galo não deixa. Nossa modernidade está deixando todos os séculos passados com o queixo caído. Cachorro dorme em silêncio, galo canta em horário incomum. Diabo!
Assim que acordei, murmurara: “Nossa! Dormi mesmo profundamente. Já são quatro e meia, respondendo-me a mulher: “Meu amor, é uma e meia”. Disse um pouco aturdido: “Mas por que este galo está cantando?”. Embora irritado, estava com vontade de fazer xixi. Fui dormir às onze e meia da noite, fora um dia cansativo, se se for pensar mesmo comi no desjejum “canela de cachorro”, o que significa que andei pelas ruas da cidade o dia inteiro, resolvendo algumas responsabilidades sérias, felizmente que tudo fora feito como manda o figurino. Pensava dormir a noite inteira. Levantar-me dis-posto, sereno, sentir-me pronto para os afazeres, um dia com efeito compensador.  Não, o galo me vem cantar ao pé do ouvido a uma hora da manhã. Só queria saber que dera na teia da vizinha para comprar logo este galo. Não poderia ter sido outro?
Saí do banheiro, tomei um gole de café, sentado na poltrona da cozinha, ainda um pouco grogue por haver sido acordado sem esperar. O que me faz dormir sempre que acordo de madrugada é tomar leite, mas havia acabado.
Alguma coisa está acontecendo de muito séria neste galinheiro. Talvez a galinha tenha ficado com o ovo atravessado, está sofrendo muito com esta situação inusitada, também não consegue dormir – que galinha iria conseguir dormir com o ovo atravessado? Creio que nenhuma. O galo está fazendo a sua parte: canta para acordar alguém da casa e correr ao galinheiro para socorrer a galinha. Aí, mais uma cantada. O que está de fato acontecendo? Isto não é normal. Alguma outra franga está deprimida ou angustiada, ficou o dia inteiro no puleiro, sorumbática. De soslaio, o galo olhou, esperou que descesse, começasse a ciscar. Não, permaneceu no puleiro. Talvez até mesmo as outras galinhas, pintos, galos hajam percebido, mas não deram tanta confiança assim, hoje é comum até os galiformes estarem tendo crises, pois que as pessoas só comem ovos de granja; para que estão botando? Para nada. Os ovos estão perdendo no ninho. Antigamente, pela manhãzinha, clima suave e sereno, alguém corria ao galinheiro, apanhava os ovos que acabavam de ser botados, cozinhavam. Ouvia-se dizer: “Que ovo gostoso” ou “Nossa!... Quê delícia de ovo!”. Não se houve mais estas palavras, estas alegrias e felicidades; com o ovo de granja impossível externar tanta satisfação, alegria.
O estado emocional dela a cada momento se agrava mais. Durante o dia ainda dera umas cochiladas rápidas, tirara uma soneca não menos que rápida, mas agora não consegue dormir, os olhos permanecem arregalados, as dores de não mais estar servindo os seus donos pela manhã com seus ovos deliciosos. Melhor morrer. Com efeito, não tem graça a vida de uma galinha, se os seus ovos não servem para mais nada. Galinha inútil. Cachorro que não late é aceitável, papagaio que não fala é inteligível. Mas galinha cujos ovos – será mesmo este o pronome relativo para a situação? – não servem mais, não tem mais qualquer sentido. Os galináceos têm apenas duas funções na vida: botar ovos ou ser almoço no prato dominical, como se diz “no prato dos mineiros”. Nem isto mais. Galinha caipira aumenta o colesterol que é uma beleza. Come-se apenas frango de granja. Agora só a morte natural por doença ou velhice. Mas passar a vida inutilmente ciscando, trepando no puleiro, correndo do galo, isso é deprimente.
E se esta galinha mesma terá vida longa, que tédio ficar no galinheiro inutilmente ciscando? Com efeito, tem suas razões mais que plausíveis para sentir-se deprimida, não é para menos. O que fazer? O galo não entende de veterinária, não tem a mínima noção de que medicamento pode ajudá-la. Mas isso nem é caso para um farmacêutico, é caso para um psiquiatra, psicólogo. Só eles entendem dessas crises existenciais. Se pudesse dizer alguma coisa, mas não, calada, sorumbática. Aliás, seria até uma contribuição à psiquiatria, psicologia, uma galinha deprimida, iriam cair na gargalhada, no reino animal também tudo se tornou possível em nossa modernidade. Terapia de galinha. Uma coisa inusitada no menu da modernidade.
Tem mais é que cantar a uma hora da manhã, acordando a vizinhança toda, e todos aturdidos, pensando até estão sonhando, um galo cantando insistentemente a uma hora da manhã. Pensa que acordou, mas continua dormindo, aliás sonhando com um galo frenético, desesperado, cantando neste horário. Precisa pedir socorro. Alguém que atine com alguma coisa estar acontecendo muito séria. Ninguém atina com isto, o galo vai continuar cantando até a aurora deste novo dia. Aí a vizinha vai perceber alguma coisa de errada. Com efeito, está doente, vai morrer logo, é uma galinha mais velha. Normal isto. Não pensara nas dores contundentes que se lhe perpassa o corpo inteiro, as penas se eriçam, calafrios ininteligíveis, devido ao fato de que os seus ovos não servem para mais nada, não será comida dominical de mineiro.
Chamar um veterinário para uma galinha? De forma alguma. Servirá de chacota do veterinário, os vizinhos irão comentar o resto do dia, no quintal só há um galinheiro, não há cachorro, gato, papagaio, só galinhas, a presença de um veterinário não teria outra razão. E se a vizinha descobre que não está doente, mas deprimida, angustiada, entristecida, desesperada com a sua situação, com a situação dos galináceos na modernidade, chamando um psiquiatra? Aí não é sandice apenas superficial, mas loucura das bravas. Ir até a farmácia veterinária para comprar calmantes para galinha em crise existencial, uma baita depressão. Loucura. O que as pessoas não vão dizer? Não tem mesmo cabimento isto.
Aí, o galo continua cantando. Diabo! Será que a vizinha tomou algum comprimido para dormir, simplesmente apagou, nada se lhe pode interferir no sono, nada se lhe acorda. Fosse assim apenas, mas o marido, algum dos dois filhos. Não. Ninguém está ouvindo a cantação do galo. Não vou ao portão da casa, tocando a campainha com insistência para dizer ao proprietário da casa ou mesmo à vizinha, que alguma coisa de muito séria está acontecendo no galinheiro, o galo começou a cantar a uma da manhã, porque me vão escorraçar, sujeito mais inconseqüente, acordar todo mundo para dizer que alguma coisa errada está havendo no galinheiro, o galo começou a cantar a uma e meia da manhã. Quanto mais que a vizinha é muitíssimo fofoqueira, Deus me livre! Tudo é motivo para fofocar. Dependendo do que for, vasculha a rua de cima abaixo para dizer o que acontecera, o que sucedera. Antes de o dia clarear, estará comentando, começando na padaria. De forma alguma.
O galo continuará cantando. Sinceramente, não fosse minha mulher também se assustar com um galo cantando àquela hora, diria que, ou estou sonhando comigo sentado na poltrona da cozinha, fumando, encafifado com um galo que começa a cantar a uma e meia e continua cantando hora e meia depois, ou estou ficando mesmo senil, e a a-nunciação da senilidade é um galo cantando num horário indevido à espécie.
Talvez estivesse criando uma crônica, uma sátira à modernidade, e não ficando senil, e a mais interessante seria a galinha estar deprimida no puleiro, sofrendo dores ininteligíveis com a inutilidade da espécie, e um galo pedindo socorro, e não propriamente ficando senil. Impossível ficar senil aos sessenta e dois anos. Sinceramente, em todos esses anos de vida jamais pensei que fosse possível um galo cantar desse jeito pela madrugada a fora. Talvez nem seja isso, não seja que a galinha entrou em depressão, e sim que o galo ensandecera, engoliu uma cigarra lírica. Aí também é ridículo: galinha engolir cigarra lírica. E por que teria ensandecido? No seu ponto de vista, na sua visão da vida galinácea, o que anda in-vertido, de ponta-cabeça no mundo, para ficar louco? Alguma coisa. Terá sido que todas as galinhas chegaram à mesma conclusão da inutilidade de suas vidas, os ovos já não serviam as mesas em todos os horários do dia, galinha caipira, hoje os homens só comem ovos de granja e comem também frangos de granja, isto re-sultando em abstinência sexual, os galos já não têm quaisquer chances, e isto para a espécie não é nada agradável, ensandece mesmo. A minha inspiração para a crônica nascera neste dito popular, diria mais interrogação popular: “levantou com as galinhas?”, dizendo que levantou muito cedo, e, em contrapartida, com outro dito: “levantou com os galos e dormiu com as galinhas”. É o galo que acorda primeiro. E são as galinhas que se re-colhem ao puleiro mais cedo.
Não estou criando nenhuma crônica. Estou simplesmente incomodado com a insistência deste galo. Como pode! Não vejo nenhuma luz acesa, só as do poste. Se estivesse incomodando alguém, com certeza já teria levantado, acendido a luz, começado a xingar, alguns de modo chinfrim com palavrões do arco da velha. Ninguém. E o galo continua cantando pela madrugada a fora, querendo chamar a atenção. Está louco. Pede que o socorram, levem-no para longe de galinhas, galos, internem numa veterinária especializada em galo louco. Quer morrer tranqüilo, longe de galinhas, só na companhia dos galos que também são loucos, sente-se em casa ao lado de todos.
Não deve haver solidariedade apenas entre os homens – retificando sem excluir, é o que não há entre eles, nem esperanças e sonhos -, solidariedade é praticada ilimitadamente, ainda mais no que diz respeito aos animais. Um galo ensandecido e ninguém dá a mínima, é como se nada estivesse acontecendo.
Vou até ao quarto, acordo minha mulher e pergunto se o galo para ela continua cantando ou isso está acontecendo apenas comigo, quem está ficando despirocado sou eu. Acordo a uma e meia da manhã com idéia fixa de um galo cantando, pensando estar havendo alguma coisa de errada no galinheiro da vizinha, a galinha entrou em depressão devido ao fato de que os seus ovos não têm mais quaisquer serventias no prato dos homens, são ovos caipiras, é a primeira indagação, o intróito da sandice absoluta, a anunciação, seguido da loucura do galo, enfim com a crise galinácea dos ovos inúteis resultara na sandice do galo.
Vou descer. Não é possível. O bicho está precisando de ajuda, a coisa não está nada boa para ele. Cabe-me chamar a vizinha, dizer-lhe que investigue o que está acontecendo, o galo está cantando muito, sem me importar que antes do dia amanhecer estará fofocando que  enfia o dedo na campainha para dizer alguma coisa estar errada no galinheiro, a galinha está deprimida e ele pede ajuda ou o galo ensandeceu.
Pensando bem, não. Deixe o galo cantar à vontade. Há certas coisas que são boas de evitar. É constrangedor acordar alguém numa situação desta. Terá todas as razões do mundo para se irritar. Tirar uma pessoa da cama, depois de um dia de muitos problemas, trabalho, dificuldades quotidianas, preocupações, para dizer uma coisa desta é realmente brincar com a paciência do outro. Merece o seu sono, embora não importe se seja profundo ou não, se para que acontecesse calmantes foram tomados. Precisam descansar um pouco, fugir de tudo que acontece, sentir-se mais dis-posto. Não há corpo que agüente tudo em cima dele.
Canta, galo! Aliás, já estou me acostumando com isso, uma coisa inusitada, excêntrica serve para espairecer as coisas. Há quando acordo de madrugada, não consigo dormir, venho para esta poltrona, fumo, um silêncio sepulcral. Nem cachorro late. Impressionante isto: é uma cachorrada pelas ruas durante o dia. Outro dia mesmo contei dez cachorros deitados. Em tom de cinismo: “também a cachorrada merece a sesta”, “a cachorrada está tirando uma soneca após os restos de comida no lixo”. Penso em tantas coisas, lembra-me isto, recorda-me aquilo. Passo a noite no silêncio de início da terceira idade. Nem grilo ouço. Silêncio absoluto. Esta é a” madrugada do galo”. Enquanto ele canta e eu aqui fico a elucubrar as razões de um galo acordar a uma e meia da manhã, quando o horário de práxis é às quatro e meia, não pára um segundo de cantar, alguma coisa está errada no métier galináceo, ou o galo ensandeceu, ou a galinha entrou em depressão, e ele sendo o companheiro está pedindo socorro: “o galo pede socorro!”. Numa manchete de tablóide seria interessantíssimo, eu mesmo leria, embora não leia jornal de forma alguma, isto não de agora, devido aos sensacionalismos, corrupções, drogas, assassinatos, etc., etc., mas desde sempre, nunca apreciei ler jornal ou revista. Matéria desta iria chamar-me atenção.
Um galo me diverte numa madrugada insone. Já são quatro e trinta e dois. Durante três horas o galo da vizinha canta e canta e canta. Talvez nada disso que antes haja imaginado como razões seja real, em verdade o galo quer se mostrar, quer tornar-se o galo mais importante senão deste bairro apenas, mas de toda a nossa cidade pacata, a pacatice é tanta que ninguém dá a mínima para o galo cantando, quer ser personalidade da espécie. A sua intenção é executar uma peça dramática, a ópera do galo. Numa madrugada mais do que pacata, galo acorda a uma hora da manhã, a inspiração baixou enquanto dormia, e, sendo muito presente e forte, acordou de imediato e começou a compor a sua “opera do galo”. O galo está com idéia fixa de artista, empreende todos os esforços para que a componha com engenhosidade e arte, torne-se a primeira ópera do galo neste mundo velho sem cancela e porteira.
Felizmente que alguém ouve, caso contrário seria trabalho perdido, sua ópera nunca existiu, não é artista coisa nenhuma, galo nenhum canta com constância. Ouço-lhe a ópera, intuo-lhe os sentimentos e emoções, os instintos, percebo-lhe o desejo de se extravasar todo, mostrar aos homens o que é isto de re-nunciar os ovos caipiras em detrimento dos de frango de granja, os sentimentos deprimentes que todas as galinhas sofrem, as dores que sentem com a vida inútil que levam, não são comidas mais nos pratos dominicais, têm de viver muito mais, se antes a morte não vier devido a alguma doença da espécie. Enquanto botam ovos, são pratos, a vida segue em harmonia, enfim os galináceos servem é para isto mesmo, mas sem isso, que sentido tem o reino galináceo? Nenhum.
O galo quer mesmo exteriorizar todas estas questões que os galináceos sofrem e ninguém dá a menor atenção. Quer que a sua ópera seja ouvida por todos os homens, por toda a comunidade, quer que os homens sintam que a vida num galinheiro também tem sua realidade difícil de ser ciscada, que também sofrem e sentem dor. Galo nenhum fizera isto em toda a história da humanidade, coube-lhe o dom de fazê-lo numa madrugada em que acorda, sentiu forte e presente a inspiração, felizmente que acordou de imediato, e pôs-se a compor a sua peça com garra e determinação, com instinto mesmo de conseguir realizar o para quê viera ao mundo, mostrar e identificar a vida dos galináceos no tempo moderno, diante da injustiça de deixá-las abandonadas, já não servem para mais nada, enfim os ovos, a carne aumentam bastante o colesterol, os riscos de enfarto são inúmeros, de outras doenças também. O que não acontece com as galinhas de granja, fazem bem, rejuvenescem as pessoas, fá-las sentir mais serenas e calmas.
Enquanto a ópera não for executada com primor, nada for esquecido dos sofrimentos dos galináceos, continuará cantando. Quando isto acontecer, nada mais irá lhe interessar, os ovos das galinhas não servem mais, a carne de galo caipira tampouco, mas a ópera de um galo que precisava mostrar ser ainda mais útil do que todos os outros de hoje e de ontem  serve e muito para os homens, enfim a música tem uma dimensão espiritual elevadíssima, além de suprema e divina. Uma ópera do galo, então, coisa que jamais ouve, nem mesmo na literatura, nas artes, é coisa inédita. Num mundo tão pacato como este, pelo menos na cidade em que vivo, música assim irá despertar sentimentos os mais recônditos.

Continuarei aqui sentado, ouvindo o galo cantar numa madrugada qualquer de minha vida.