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sábado, 19 de agosto de 2017

Catando verdades entre os escombros (excerto)

(...)
Durante aquele momento chamado vida, E. Godoi achava que não pertencia ao mundo. Existia ele, E. Godoi, e o mundo considerado como tudo e todos fora dele. O mundo era aquilo que ele via girando ao seu redor. Nele estava tudo o que E. Godoi desejava para ser feliz. Como não havia qualquer identidade entre E. Godoi e o mundo, a felicidade nunca estaria nele.
Por que o mundo era tão carrasco? Por que a vida fez de E. Godoi sua grande vítima? Ele se acostumou e não sabia viver de outra forma, senão triste e esperando do mundo a sua felicidade.
Nem mesmo havia uma ponte entre o mundo e o pobre E. Godoi, e a culpa era do mundo, claro, pois não seria E. Godoi o responsável por construir essa ponte. Afinal, por que E. Godoi implodiria toda uma estrutura mental, construída ao longo de uma vida, para usar escombros, construindo uma ponte entre ele e o mundo. Seu reconhecido sofrimento era sua aprazível zona de conforto.

(...)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Clones da Razão

Dona Razão é uma dama fácil. Anda com todo mundo.
É única, porém, não é raro que esteja com um e outro ao mesmo tempo.
Estranho não? Seriam clones da Razão??
Mas o interessante é que os clones são invisíveis. Então, se estou com a dona Razão, você não está, porque não vejo nem mesmo seus clones mal feitos. E nesse mundo concreto, existe somente o que vejo.
Claro, para você acontece o mesmo. Dona Razão está com você, é sua amante fiel, nunca o abandona. Você se orgulha disso e se pavoneia, alardeia, porque não a enxerga também, bem aqui do meu lado, na minha frente, atrás, sobre mim... Dona Razão é boa assim, sim!
É daqueles prazeres breves e, portanto, intensos, superáveis apenas por um Señorío de Ayud, ou qualquer outro tinto (seco, por favor!).
Quem será que está com a verdadeira Razão? Quem será que tem um clone ilegítimo?
A Razão, toda cheia de razão, então, assiste de camarote à disputa tola entre proprietários de clones espúrios, fabricados pelo seu arqui-inimigo e amante sadomasoquista, Sr. Ego.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Olho por cima/olho por dentro

Chegou o dia, em que me percebo com os óculos na ponta do nariz!
A primeira imagem que me vem é a da mamãe noel dos filmes… bem daquele jeito...
E agora eu vejo, com esses óculos, que não estava certo “olho por olho, dente por dente”.
O ditado original era: “olho por cima, olho por dentro das lentes”.
A tal expressão vingativa é, provavelmente, mais um daqueles ditados deturpados de ouvido em ouvido do tipo: batata que esparrama, mármore que escarra, gato usado em caça, ofício com esqueleto, coisas assim... e Roma, então, que passou a receber turistas bocudos, em vez de vaias.
Mas os óculos na ponta do nariz são algo prático e, com a idade, precisamos ser práticos, especialmente porque lente multifocal é cara... e feia... e dá trabalho do mesmo jeito, dizem.
Além do que, enxergo muito bem e longe, bem longe mesmo, tipo superpoder. Aliás, tenho todos os sentidos superaguçados. Queria que existisse, de verdade, um Prof. Xavier, pois, mesmo já usando óculos na ponta do nariz, ainda não sei lidar com meus supersentidos mutantes. O bom é que são invisíveis.
Por falar em invisíveis, voltemos aos óculos.
Será que estou com aquela cara de sábia anciã? Sobrancelhas levantadas, lábios contraídos, olhando o mundo sob (e sobre) uma ótica multifocal?
Ah, hoje em dia é fácil saber... farei um (ou uma? Nunca sei) selfie a “mamãe noel”.
Mas não funciona assim. Não dá certo, porque já é automático: olho meu rosto na tela e já me coloco num ângulo meio oblíquo, pra esconder a cicatriz do lado esquerdo do nariz, onde os óculos fazem cócegas… e tento sorrir sem forçar muito os pés de galinha, além de levantar o queixo pra disfarçar o papinho. Também sei que vou clicar umas 150 vezes, mudando milimetricamente o ângulo, em relação à luz, pros buraquinhos de acne não ficarem com sombra…
E, claro, vou acabar endireitando os óculos...
Tá, pelo menos na ponta do nariz vou tentar deixar.
Mas não sou fofinha como a mamãe noel. E minhas bochechas não são rosadas, por causa da base... têm cor só quando tem espetáculo. Odeio blush!
E coque? Não, né... pouco cabelo. O coque da mamãe noel é poderoso. E meu cabelo é pintado, claro!

Ah, deixa pra lá! Nem estou usando vermelho!

domingo, 6 de agosto de 2017

TRAJETÓRIAS CONVERGENTES *By Arnaldo Leodegário Pereira






TRAJETÓRIAS CONVERGENTES 
Filhos que não perdoam seus pais Flávio e Aparecida: Flávio não perdoa seu pai, pois o mesmo judiava de sua mãe e de seus irmãos pequenos há mais de trinta anos. Aparecida não perdoa seu pai, pois (ele) espancava sua mãe e batia em seus irmãos há mais de trinta anos. Detalhe: os dois não são irmãos, nem se quer se conhecem. Flávio sente falta de seu pai, que foi embora e nunca mais apareceu. Dele só restou a triste lembrança do espancamento e dos maus tratos a sua mãe. Flávio cresceu e tornou-se um homem revoltado com problemas de saúde, de baixo-estima e problemas com seus irmãos. Flávio é casado, leva vida honesta, porém cultiva muita mágoa no seu coração. Sua vida profissional é um tanto conturbada, ele tem dificuldade de parar em empregos, problemas de relacionamento com seus colegas de trabalho e com seus patrões. Disso também lhe restaram dificuldades financeiras. Aparecida, embora tenha seu pai presente não aceita conviver com ele. Dá-lhe desprezo e indiferença. Não o suporta, nem consegue encará-lo nem mesmo à mesa para tomar as refeições. Se ele estiver na sala ela vai para a cozinha e vice versa. Está sempre a se queixar dele, e culpá-lo pela sua infelicidade, e de sua mãe. Vive amargurada, guarda muitas mágoas e rancor, não consegue afirmar-se com um namorado, queixa-se de debilidade de saúde, como depressão, fobia, enxaqueca, e urticárias pelo corpo. Formada em arquitetura alega dificuldades para exercer sua profissão. Flávio é corretor de imóveis, apesar de esse ser um ramo promissor ele está sempre desempregado. Ele sofre de bronquite alérgica, depressão e rinite alérgica, porém procura refugio no alcoolismo, e em seus momentos de embriaguez chega ao delírio, fala em um dia poder acertar as contas com seu pai, ou mesmo cometer um homicídio. Com muita mágoa alega que só não procura seu pai para tal finalidade porque em alguns momentos de reflexão pensa muito em seu filho pequeno e em sua esposa carinhosa. Aparecida tem muita dificuldade de relacionamento com seus colegas de trabalho. Ela sente muita mágoa, tem mania de perseguição e sempre afasta seus possíveis pretendentes alegando que não quer sofrer e passar com um esposo por todos os maus tratos que sua mãe sofreu. Já passaram se mais de trinta anos. Se fosse mos fazer uma viagem ao passado e submeter o pai de Aparecida e o pai de Flávio a um tratamento com um analista e um psicólogo, será que não acabaríamos por descobrir que os dois teriam sido eles mesmos vítimas de algum fato trágico ou mesmo de violência em algum momento da vida? Ou o mal que eles praticaram. Esses atos de brutalidade não seriam o reflexo de algum dano que alguém lhes causou em suas infâncias ou adolescências, e assim os mesmos também seriam vitimas? Flávio: será que seu problema de saúde é mesmo de ordem física?... Aparecida: terá a medicina remédio apropriado para os seus males?... Os dois devem deixar para trás as mágoas e rancores do passado para serem felizes livres desse fantasma?... Obs: (essa narrativa é extraída de fatos reais). Este texto está protegido pela lei de direitos autorais 9.610/1998. Arnaldo Leodegario Pereira