Total de visualizações de página

terça-feira, 24 de novembro de 2015

ÚTERO À PALAVRA - III PARTE - MANOEL FERREIRA NETO



Bendito é o fruto de Vosso Ventre, Senhora!... Bendita a Palavra de Vosso Útero, Senhora!...
Estive pensando num momento em que fora comprar pão e leite na padaria não mais preciso ter pressa para as coisas, aquela ansiedade de vê-las real-izadas, usufruindo alegrias e felicidades, “curtindo” a vida, noutras palavras e sentido, sinto de por baixo dos pés o chão que me possibilita a caminhada em direção à Vida. Sinto-Vos, Senhora, guiar-me os passos, o espírito. Agradeço-Vos. Estou no meu lugar devido, sei o que quero e preciso, esforço-me, luto, entrego-me, tudo o mais serão resultados, posso tudo fazer devagar, com inteligência e engenhosidade. Dizem que nós, os mineiros, trabalhamos devagar e silenciosos, por isto o que fazemos torna-se perfeito e eterno.
Num tempo de chuva, como é bom ficar em casa, no calor de uma biblioteca, na companhia de um livro, no seio das palavras, criando, re-criando, na suavidade de uma música... Num tempo de chuva, como é difícil, complexo, complicado ser cristão, em comunhão de vida e morte, com aqueles e aquelas que não têm casa, que estão desabrigados, perderam entes queridos, perderam todos os bens, devido às tragédias da chuva, não sabem ler e não há quem lhes leia, nem entendem a suavidade de uma música, seus acordes, ritmos, melodias, ou não há música, para eles, capaz de ser suave! É doloroso, difícil meditar, refletir um evangelho de por baixo de boas cobertas, cobertores, na consciência distante dessa gente nua, des-coberta, abandonada, suja, des-caracterizada, des-encontrada de Deus, das Suas graças, de Seu Amor eterno e imortal...
A tentação que tenho, às vezes, Señora, é de não mais ler, não mais escrever, nem mais buscar, nem mais ser: enquanto não for mais coerente, enquanto não for mais irmão, enquanto não for, de fato, irmão, enquanto não for feito de atos e não de palavras! Se ao menos rezasse bem e com força por essa gente, por esses homens sofridos, esquecidos, negligenciados, censurados, pobres, miseráveis...
Perdoai-me, Senhora, e, de algum modo, falai-me por onde é o caminho estreito do Reino de Deus, e a exigência libertadora do amor aos Vossos prediletos... Queimai com Vosso Espírito minha “falta de vergonha”, e destrui em mim a pretensão de pretender qualquer coisa porque alguma coisa faço (ou penso fazer!) pelo Vosso Reino, como essa de meditar todas as vezes que entro numa igreja, ajoelho-me aos Vossos pés um pouco, na dimensão de Vossa bondade. Perdoai-me esse “palavrório” de cada vez que aqui venho, se não é esse o caminho que o Senhor quer de mim, que Vós desejais de mim na busca de encarnar o Evangelho de Deus. 
Delírio... Sinto que ao meu lado está o amor que esperava; entre risos, beijos e abraços, não vejo a noite passar, durmo profundo, sinto-me sendo. Haver encontrado o amor de que necessitava já é uma dádiva divina, o que mais quero e desejo? Quero que este amor me mostre os caminhos do Ser. Mostra-mo, sim, Senhora, é por esta razão, motivo, que o tornarei eterno comigo, seguir-me-á por todas as trilhas  da eternidade.
Quanta vez à beira de rios, lagoas, olhava as águas seguirem o destino, colocando-me em êxtase profundo, e, ali, absorto, ficava horas querendo compreender o porquê da sensação de alegria, prazer, a atração sobremodo frenética que as águas exercem em mim. Assim, Senhora, dir-Vos-ia de minhas ilusões, quimeras. As ilusões, quimeras, fantasias... rios místicos que me embalam, dolentes ou, como o mar, que, fremente, me joga contra o rochedo das desilusões. Minha vida é assim: misteriosa miragem de encantamento e prazeres; jogo-me nas profundezas, dissipo-me. E a alma? Misteriosos enigmas de dores e sofrimentos, lanço-me nos seus interstícios, vago-me em delírios, medos. Compreendo, sempre, que é assim que posso contemplar a terceira margem dos rios de águas límpidas e transparentes, embora o coração pulse muitas vezes desconsolado e triste.
Quanta vez, sobre a rocha, em imaginação, inspirado pelo verbo da Vida e do Espírito, olhei para o mar profundo, a profundidade das águas, que se agitando incessante e continuamente, ondas dentro de ondas, e tão cheio de mistérios, mistérios do inaudito, inolvidável, mistérios do indizível, numa roda-viva, num ganhar, trocar, dar, colocava-me em êxtase profundo, e tudo que desejava era ser iluminado, a beleza se me re-velasse, e, ali, absorto, disperso, ouvia ao longe murmúrios de tristeza, sussurros de agonias; choros e lamentos que aos meus ouvidos chegavam mórbidos.
Nascer é um turbilhão de amor da natureza em manifesto! Da semente que gera a flor ou do animal que pare o feto não há qualquer diferença; turbilhão de amor da palavra que semeia os sonhos, utopias ou das letras que constroem os devaneios e quimeras, do amor não há ad-versidades; da sublimidade que vemos é impotente qualquer descrença da existência de um ser supremo; da divinidade que habita nosso coração e espírito, do transcendente que con-templamos nas Palavras de Deus, no Vosso Amor, Mãe Santíssima, é verdadeiro e eterno o Espírito.
A vida-eco de uma explosão é morte lenta inexorável!... O estrondear de uma explosão determina o quanto é durável o eco que se perde no espaço. O homem se agarra à própria vida como se tentasse num abraço alguém deter, em vão, a brisa. Agarro-me às palavras como se tentasse não imprimi-las, registrá-las, mas sentir-me vida nelas, serem elas a vida que me fora dada, como verbo de minha missão.
Tudo ao meu redor se re-(n)-ov-a... As quatro estações do ano, o nascer de cada dia, os sentimentos e emoções, quando minha doce-companheira-e-esposa deita sua cabeça em meu peito, e todo eu sou desejos de sua felicidade e alegrias; as noites não são iguais, os dias não são os mesmos nos esmos da solidão e das ternuras.
Também tenho(tive) estações: na infância, Primavera, flor mimosa e perfumada das letras, o encanto do sublime e verbal, a beleza do divino e essencial, a palavra que busca e segue a trilha do  verbo, desejo do amor absoluto pela humanidade. Na adolescência, Verão, calor que agita emoções desejando a eternidade, o eterno, paixões, ânsias incontidas, a música perene que redime os sofrimentos e dores, que eleva o espírito, que transcende o sofrimento e a carne se torna Verbo, e as letras se tornam Espírito. Outono de mocidade, êxtase diante dos pensamentos e idéias, da verdade e das ideologias, a colher bons ou maus frutos na re-(n)-ov-ação perene que antecede o melancólico e nostálgico inverno. Velhice, frio de ausências, desconsolo de faltas... De esparsas saudades vividas... Cansaço e des-engano, de quem nada espera.
Na mocidade, Mãe Santíssima, com a sonda da vontade e do querer desejei perscrutar o meu íntimo Ser até a fonte inesgotável, infinita de Deus imensurável. Ajuntei todas as letras e denominei-as “desejos de verbos”; reuni todas as silabas e denominei-as “contemplação do amor”. Ao longo da vida, nas circunstâncias e situações do tempo, embora já houvesse comungado as letras e sílabas, houvesse já usufruído prazeres e alegrias com as conquistas espirituais, cansei de catar migalhas fugazes, de amores e prazeres incapazes de sobreviverem mais do que o menos do menos da existência que tenho.
Ilusões, ilusões e nada mais!... Procurarei Deus, sem me cansar jamais, porque preciso acreditar no amor verdadeiro; basta de tanta dor. Deus sempre me perseguiu no Outono, Inverno, Primavera, Verão. Não compreendi antes, na infância, adolescência, mocidade que tinha de haver um puro e sublime amor, seduzido pelas idéias e pensamentos, seduzido pelas glórias e conhecimentos, que justificasse viver sem temor para o inevitável do após morte. Minhas letras só teriam sentido e significado, seriam verbos de mim, quando o Menino-Deus nascesse de mim.
Por um instante, penso e sinto que conheço o mundo que os homens sonhamos: de fraternidade, amor a refletir a paz. Por um instante, em idiomas diferentes, ouço os homens cantarem em uníssono o mais maravilhoso, fantástico, esplêndido e esplendoroso dueto: “Noite feliz. Noite de amor...” E, na orquestra, milhões de sinos repicam, dobram, redobram, a dizer-nos: “Paz na terra aos homens de boa vontade”. Desçamos para nos confraternizar no Simbolismo do Natal... Enquanto houver amor no coração dos homens, a presença de Deus, a presença de Vosso Filho, Mãe querida, a presença da Palavra Divina está em manifesto.
Quanta vez me perguntei: por que o amor de mãe é diferente? Na minha realidade e verdade, não a mãe que me gerou, mas a mãe de criação, a minha eterna e imortal Dinha, quem sabe até como José, o pai de criação de Jesus, o pai contingente, o pai do mundo, que Ele amou tanto como a seu Pai, Deus?
Senhora e mãe, que na Paixão e Morte do Vosso Filho e nosso Salvador, Jesus Cristo, nós, os homens, encontremos força e vida para a nossa luta do dia a dia. Que crer nele para viver dê sentido ao nosso sofrer, ao nosso morrer. Que esperar nele e por ele dê alegria ao nosso esperar. E, sobretudo, que amar a Ele nos comprometa a amar como Ele amou e amar a quem Ele amou.  
A Paixão e Morte de Vosso Filho, oh, Mãe Santíssima, do Senhor Jesus, podem dar sentido às nossas mortes e paixões... quando temos fé, quando temos esperança, quando temos compromisso com os irmãos.
Toda vida, mesmo a menos vida, tem entrada triunfal numa Jerusalém qualquer, tem ramos de vitória numa vitória qualquer, tem cortejo de aclamação numa conquista qualquer.
Senhora e Mãe, ensinai-me a viver para aprender a morrer! Ensinai-me o direito inalienável do viver inseparável do direito inalienável do morrer! Ensinai-me a lição de morte de cruz de Vosso Filho! Ensinai-me a serenidade de viver a morte não apenas como certeza da ressurreição para mim que creio!
Suplico-vos, Senhora, tende piedade de mim!... Vós bem sabeis das minhas necessidades, dos sonhos dentro de outros que em mim fremem, que em mim são larvas de vulcões despertados dos séculos e milênios.
Compadecei-Vos e inter-cedei-Vos para que eu não seja julgado por meus merecimentos, pelas palavras que desejei gerar verbos, mas pela fé e pelo arrependimento de minhas culpas, pela esperança e pelo ressentimento que em mim trago dentro, das mágoas  de haver sido gerado no pecado original, pelo qual tanto padeço quando sofro; a falta do pão de cada dia, a falta da linha para tecer o crochê de minha vida, experiências e vivências; quando sofro a solidão, os séculos de buscas e querências, os milênios de desejos e meras fantasias, o desamor do que eu amo, a desigualdade social que destrói minha esperança e humilha... a desigualdade artística e cultural, que elimina meu amor e ofende... a desigualdade da verdade e do sonho que extirpa minha paixão e humilha...
Vós também fostes gerada, Vós também ficastes no útero de Vossa Mãe por nove meses, Vós também nascestes como qualquer um de nós: por esta razão podeis entender-nos como pouca gente mais que a nossa mãe contingente, podeis amar-nos mais que ela. O que Vós diferis de nós, de todas as mulheres, é que desde toda a eternidade Deus escolheu-Vos para ser Mãe de Seu Filho, nasceria para gerar o Salvador do mundo.
“Como pouca gente”: porque, além de ser como qualquer um de nós, Vós fostes e sois o que é! porque, além de ser como qualquer um de nós, Vós vivestes e viveis o que é! porque, além de ser como qualquer um de nós, Vós compreendestes e compreendeis o que é! porque, além de ser como qualquer um de nós, Vós sentistes e sentis as nossas carências, nossos desejos de sermos amados e amar.
Ninguém é tão igual, ninguém tão semelhante, ninguém tão lado-a-lado, ninguém tão só Vós como Vós. Vós, o lado feminino de Deus na história dos homens, na vida da humanidade.
Por favor – ou seria melhor dizer “por caridade” -, esqueçai de que nós homens andamos esquecendo-nos de nós, da Senhora; esqueçai que a Igreja, por ideologia, dogma, arbitrariedade não Vos incluístes na “indade” – mas que ironia, os homens Vos trazemos no peito, na alma, no espírito, como trazemos Deus, Espírito Santo, Jesus Cristo. O povo a ama, o povo espera em Vós, o povo espera vossa intercessão junto a Deus, até mais do que a Jesus Cristo. Senhora e mãe, esqueçai de que nós Vos andamos esquecendo. Orai por nós, intensificai por nós a súplica, o grito, o clamor por esses degredados filhos de Eva e tristes filhos e filhas do Ave. Agora, hoje, aqui, amanhã, sempre e na hora de nossa morte.
Pois é: ninguém pode perder a esperança, a não ser que não seja mais homem! Ninguém pode perder a esperança, a não ser que não seja mais gente! Ninguém pode perder a esperança, a não ser que não creia mais em ninguém. Ou em nada! Ninguém pode perder a esperança, a não ser que nada tenha que esperar!
Pois é: se por acaso, mesmo no ocaso de todos os acasos, tudo estiver perdido, fica a esperança firme de procurar o que se perdeu, de buscar as sendas perdidas à luz dos desejos e vontades da plenitude e sublimidade e... recomeçar outra vez, porque somos nós responsáveis por aquilo que o Pai de Vosso Filho nos deu e que plantou com carinho dentro da gente.
Vosso Filho, aqui pela Terra, pôde dizer: “O reino de Deus está dentro de vós!” O Senhor nos fez a partir de dentro. E dificilmente, Senhora, encontramos a paz e plenitude, quando não conseguimos encontrar-nos conosco mesmos. Dentro do nosso dentro. Dentro do dentro, onde o Senhor mesmo se escondeu como objeto de busca e procura de cada homem. Ensinai-nos, oh, Virgem Pura, a dimensão interior da Vida e, ainda que pareça e seja duro, não haverá mais exílio.
Não há outra saída, escapatória, para quem crê em Vosso Filho, a não ser aquela de crer que Deus é simples, que Vós sois humilde. Mais do que simples, Deus é simplicidade. Mais do que humilde, Vós sois a humildade. Diz Leonardo Boff que uma forma de negar a divindade de Deus é afirmá-la de forma orgulhosa e onipotente.
Sim, no silêncio de uma noite, é tão lindo, esplendoroso, sublime ouvir: “Uma forma de negar a divindade de Deus é afirmá-la de forma orgulhosa e onipotente”.
Sim, no silêncio da tranqüilidade de me encontrar comigo mesmo, posso também dizer, afirmar e gritar: “Uma forma de negar a humanidade do homem é afirmá-la de forma orgulhosa e onipotente”.
Nós, Senhora, e muito mais eu, a Criatura e o Filho, temos que nos tornar simplicidade. Não venho apenas para intelectualizar as Palavras de Deus, não venho apenas para cantar os cânticos do Amor. Venho para buscar, desejar a Vida através do útero à palavra, venho para viver e desejar a Vida aos homens. Por que não ser simples? Porque não ser humilde?
Colocai-me em mim, Senhora, a capacidade de ser simples. Mais que a capacidade, a partir de ser simples. Senhora e Mãe, como é possível acreditar no Senhor, sobretudo no Vosso Filho Jesus, e ser tão pouco simples? E ter medo da simplicidade e perder o sentido do humor, da graça? Mãe, ensinai-me, pelo Vosso Espírito, a arte simples de ser simples. Se não em nossos dias, ao menos em nossas noites. A sós.   
Peço-Vos, Mãe Santíssima, verbo de meus desejos e sonhos, vontades e esperanças, ainda força e resignação, para os que padecem nos cárceres ou nos leitos dos hospitais!... Que possam, todos os que sofrem, todos os que têm dores ininteligíveis às suas razões, motivos, descobrirem alento através da Oração!...
Oh, minha alma, meu Eu Verdadeiro e “Eterno”, como pude pela vida a fora correr fascinado pelos prazeres fugazes do mundo material e, só agora, quando o sofrimento dilacera-me a carne e os des-encantos e des-enganos, faz-me sentir a miséria da miséria que sou, posso, na meditação, na oração, na confissão, lembrar-me de Vós, Espírito e Alma, de Vós, Maria Santíssima.
Só através de Vós posso sintonizar-me com Deus e suportar como Jesus os sofrimentos, injustiças. Foi no sofrimento, na esperança do coração agüentar um pouco mais, quando a dor sufocar minhas paixões e as lágrimas   
Vosso fiel esposo, oh doce Maria Santíssima, criou um dia o universo, a terra, os rios, florestas, abismos, oceanos, tudo isso que não cansamos de ad-mirar e que amamos!... Deu-Vos e a nós o Seu Filho Amado. Ao poeta ensinou versos para cantar todas as belezas, para revelar os sonhos e quimeras do espírito, da alma. Ao escritor ensinou a palavra, a prosa, como arma contra os que oprimem e matam; a palavra como um hino de louvor aos bons e puros num acorde de amor... Ser escritor é padecer por estar vivendo na terra, tendo uma alma inquieta, que no uni-verso flutua, crendo nas coisas perenes... Sentindo a realidade que tudo se desvanece numa mutação constante, sofre a dor apaixonante... de ver morrer seus amores  O contraste foi criado para não haver monotonia, tédio, melancolia e nostalgia, em tudo que já havia!... – saudade, prazer passado, alegria vivida, felicidade vivenciada a nos refletir tristeza.
O nascer do sol, que é vida, o mar, flores, e o amor refletido no que existe, no que há-de vir; o entardecer-fim do dia ou o começo de uma noite. Que noite me espera, então, Senhora? Quero luz, amor e canto e o muito que posso ter é uma lua, refletindo uma paz que tanto quero, amor que tanto desejo no mundo, entre os homens, no coração da humanidade.  
Qual de nós é capaz de dizer qual da sublime criação Divina imprime mais a sua presença e traz o porquê de tudo que vemos? Quis então, Vosso fiel esposo, depois de tudo criado, ver, num ser sintetizado sua obra e tudo que vemos na Vossa imagem, na Vossa imagem de Mulher!...
Um dia Vós dissestes a Santa Matilde que ninguém podia honrar-Vos melhor do que com a saudação da Ave-Maria. Hoje, pela manhã, passei aqui na igreja, Basílica de São Geraldo, rezando a Ave-Maria aos Vossos pés, lembrando-me de Vossa conversa com Santa Matilde; esbocei um sorriso nos lábios, é difícil rezar o Pai-Nosso, só rezo a Vossa oração. Perguntei-Vos, então, por que não fora Vós quem a criastes, ensinando-a aos homens como fizera Vosso Filho com o Pai-Nosso. Meus êxtases seriam ainda mais divinos e exultantes, se isto houvesse acontecido. Se assim o fizermos, especialmente rezando o Terço diariamente, e até mesmo o Rosário, receberemos de Vós graças sobre graças. Na súplica de cada Ave-Maria, nós lhe dizemos: “Santa Maria, Mãe de Deus...” É esta majestade que Vós dais poder de rogar por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Rogo-vos então que é “cheia de graça”, que me conceda ser, também os homens, por Vossa intercessão, repletos da graça de Deus, em todo tempo e lugar, sem o que pereceremos.  
Ah, Senhora, em que guardei as origens, anunciações, em que cofre de vidro, de madeira, estão as sementes de outras folhas e flores, frutos e promessas de outros, em que olvidar as fantasias, em que endossar a realidade, transparecer os idílios na nota suave do balançar das folhas nos galhos tantos que se expõem e mostram a luz dos sóis de raios efêmeros e fugazes, onde a lua entoa milagres do impossível, magia do inaudito, enigma do inolvidável, mistério do indizível, à espreita de folhagens, as margens do rio sem pressa, des-alinham ondulações, des-lizam vagas da água límpida.
Onde a lua entoa sua melodia na cítara de sentimentos que nascem e re-nascem?... Onde as estrofes na moldura de sensações e fantasias?! Onde os versos nas aberturas e frinchas de outras realidades?! De onde os raios que transcendem?!... De onde a cruz, agonia e sofrimento, a cruz cuja luz enobrece o futuro, resplandece o presente?!... De onde, Senhora, a cítara silente em cujas sinfonias de ritmo, melodia que desfiam as linhas de horizontes em imagens outras de folhas e galhos?!...
Saio a esmo, sem a medida do mesmo, no esmo de mim: faço-me di-verso. Convexo-me em Vós. No re-verso onde me perco re-vejo-me, re-escrito, e re-começo in-verso, embora o mesmo. Amando, e então sendo amado são caminhos que se cruzam, entre-cruzam, comungam-se, aderem-se num saciar de desejos, anestesiando a dor para fecundar o amor. Filho – quem é mãe, pai sabe-o com perfeição: um amor abstrato que nos faz chorar, que se torna desde então substantivo concreto.
Vem chovendo por dias consecutivos. Amanhece. Sensação gostosa contagia-me, fruto da divina magia dos pingos dágua, do essencial mistério que se me revela no espírito, olhando as serras ao longe, semi-cobertas por nuvens finas de neblina.
Caminho sem rumo, a caminhada da manhã, antes de iniciar as labutas, acompanhadas de sonhos e esperanças do que me habita, do que abre os horizontes, uni-versos da alma para o sentimento pleno do verbo “viver”. Perscruto ao meu redor e, por vezes, embeveço-me, buscando no infinito, em meio ao cenário da chuva fininha que cai, lavando as ruas, a neblina que “semi-encobre” as serras, que des-cortina no tempo os desejos de “ser”, “viver”, as formas que vão surgindo, as imagens que se anunciam – fosse artista-plástico teria em mãos todos os elementos para uma peça.
Mãe Santíssima, que fantástico, esplendoroso, aqui e ali assisto não apenas ao nascer de um novo dia, à continuidade da fina chuvinha, mas às mudanças que sinto haverem se processado na vida; jovem, chuva era símbolo, metáfora de melancolias e nostalgias, tristezas, angústias, quando sentia a vida estava tão distante de mim, no íntimo apenas dores, sofrimentos, fracassos, frustrações, medos, os sonhos eram justificativas de minha impossibilidade de realizar a vida, fuga de sentimentos de inferioridade – devo confessar que me julgava inútil, vegetaria no mundo, arrastaria pelo chão, a morte seria libertação de todas as misérias, seria o fim de todas as incapacidades, nasci para real-izar o fim do homem. Hoje, a chuva é símbolo, signo de esperanças, de desejos sublimes de alegrias, felicidades, amor, quando vejo que os pingos dágua são anunciações de o espírito estar sensível para outras dimensões do Ser, especificamente para a Linguagem do amor e da vida, para a linguagem e estilo dos sentimentos e utopias.  
Tudo que me surge, tudo que se me re-vela, numa seqüência lenta e harmoniosa, faz-me sentir as emoções de um parto, de uma seqüência de partos... É o meu uni-verso acordando. É o meu “ser” despertando para a Linguagem do verbo, para a linguagem do sujeito, para a linguagem do verbo e sujeito comungados, para a forma do amor nas imagens e realidades da natureza.
Num canto circular do horizonte, num sítio vertical do passado, o negror da noite se dissipava com pinceladas acinzentadas, com delineamentos horizontais de palavras supérfluas, apenas a beleza dos termos e sentidos que neles habitam, diluindo para o surgimento esmaecido de outras cores, de outras perspectivas e ângulos. Eu via, Senhora, com estes olhos que nada mais enxergarão, após a morte, se enroscando vertical, negras nuvens que, numa ascensão lenta, parecendo que alguém levantava uma grande cortina de babados para o início de um grande espetáculo, espetáculo de risos e dores, espetáculo de sofrimentos e esperanças,porque reflexos de luzes se chocavam contra o cenário.
Quem fui? Quem sou? Será que o sido de mim manifesta quem sou, manifesta o que a vida é hoje para mim? Será que quem hoje sou é resultado, conseqüência do vivido e experienciado nos dias de outrora? Perdoai-me a poesia, Senhora?... Na luz difusa outras imagens, insinuações de perspectivas e ângulos vão se definindo na mesma proporção em que a luminosidade aumenta.
Diante da beleza contagiante e da imensidão, não me lembra de minha inutilidade, dos sentimentos de não, não me lembra de minha insignificância.
Oh, chuva, oh pingos dágua! Encho os meus pulmões da chuva suave que cai, da neblina que cobre as serras, emoção indescritível faz-me sentir um gigante e senhor das coisas, que os meus olhos atônitos divisam. Cada célula de vida do meu corpo se reativa de prazer e alegria de viver envolve-me...
As silhuetas do horizonte, vistas à luz da chuva e da divina magia das serras, montanhas, pedras vão se definindo. Agora mais distante posso distinguir montanhas, planícies e caminhos do campo. Cenários de meus sonhos de liberdade e quimeras inocentes, ingênuas, de minhas utopias de espiritualidade e fantasias pueris!...
Uma linda manhã de chuva!...
A esperança que me habita os recônditos da alma e espírito – eis o questionamento que me fazeis, eis dúvidas que se me anunciam, responderei de modo e estilo que os tempos não esquecerão, os homens na res-posta dada buscarão o sabor, o paladar de outros horizontes e uni-versos que preenchem o vazio do mundo e das coisas, preenchem-nos de vida e de sublimidade. Se senti eu este sabor, em certas situações, sim, sinto feliz, orgulhoso, lisonjeado, em outras circunstâncias, não, sigo a busca, a caminhada.
Abri as portas do meu coração, estivera por longo tempo triste, curtindo invernos, sozinho – enfim, não havia compreendido ainda que a vida é feita de alegrias, dores, angústias, felicidades, é feita de encontros e desencontros, aí é que poderia fundamentar-me para seguir em busca de todos os sonhos, vontades e desejos do “verbo amar”. Meu coração pôde contemplar a primavera que havia chegado. Ouvi as melodias dos pássaros, senti o sol espargindo luz e calor. Tudo era manifestação de amor, tudo eram re-velações do espírito e da natureza. Agora, ele bate, ritmando o canto deste amor contido que, apaixonante, irá pelos caminhos fecundando amores tantos que a felicidade voltara a ser minha companheira, minha doce-companheira, minha doce-amiga.
O dia é noite no poema, os minutos e segundos são agonias nas estrofes da madrugada, nos signos das dores e sofrimentos, à Hora do Ângelus, nesta em que Vos dirijo a palavra, Minha Mãe Santíssima: sombras, pedras, luas secas encobrem a estação das flores. Sobre o deserto ainda restam ecos entre as cinzas desta palavra. No solo triste do poema enterro o fim e infinito, eterno e efêmero, sublime e sereno, faço-me silêncio, eclipse. A manhã é espírito na prosa, é sempre inteligente, e a arte é força pungente; amiga das tristes horas. Ao som de um violão chora cantigas de linda sensibilidade, intuição, percepção.
Basta. Já sofri demais. Porque hei-de de padecer e chorar todos os meus ais, uis, ohs, sem conhecer o prazer? Que força invisível, que energia ininteligível julga-nos sem dó nem piedade, implacável? E as leis, quem as promulga, tão frio, inexorável? Se existe mesmo a lei do retorno, não poderia aplicar aos insanos, insensíveis, frios tal retorno; neuróticos, psicopatas, psicóticos castigar... Aos infelizes, as penas aplicamos nós, humanos; nos combalidos algemas, correntes por maldade ou por engano. Ao ser humano perdoar é tão difícil, sublime, como humilde ou não magoar... Paz que tem, quem não oprime, negligencia, condena, julga.
A noite é esperança da aurora, os vazios dos ponteiros no relógio são melodias do verbo e da fé, nos arquétipos divinos e uni-versais à Luz da Manhã, manhã que indica outras lutas, utopias, sonhos, a luta, os esforços, empreendimentos... A esperança de ao chegar a noite tudo fora feito de modo a crescer, amadurecer a Vida.
Bendito é o fruto de Vosso Ventre, Senhora!... Bendita a Palavra de Vosso Útero, Senhora!...
Escrever a palavra do amor que habita Vosso útero, escrever a água da palavra rio, mar, oceano, o vôo da palavra ave, pássaro, o rio da palavra margem, o olho da palavra imagem, a chama da palavra fogo, a língua da palavra verbo, o suspiro da palavra alegria, a visão da palavra perspectiva, o eco da palavra nada, o amor da palavra VERBO que trazeis no Ventre. Ah, quem dera, Senhora, pudesse eu fazê-lo verdadeiramente, não apenas com a minha verdade, a verdade de meu curriculum vitae! Na Bíblia, nada é signo, metáfora, símbolo, arquétipo, tudo é a Verdade pura e divina. E eu me pergunto: “Quando na minha obra isto vai acontecer?”. Sei que não será possível, enfim sou homem, sou contingência, mas posso afiançar-Vos, Señora, que o meu espírito exulta de sonho e esperança de isto se tornar verdade, a obra ser a expressão da Verdade.
Havia uma amendoeira que enchia o espaço de Vossa casinha onde vivíeis com Vossa mãe. A casa tinha uma gruta no interior e outra, menor, fora, ambas abertas na mesma rocha da colina. A gruta interna era a adega do azeite e da farinha; a externa era utilizada como depósito de lenha para o inverno. Nesta gruta, cada ano as andorinhas faziam seu ninho. Já eram esperadas antes que acabasse o inverno.
Depois da vinda das andorinhas, chegavam grandes bandos de cegonhas que, voando lentamente e em grandes círculos, dirigiam-se para o norte. No outono, Vossa viagem de retorno seguia a da marcha das andorinhas. Vossa mãe e Vós as contempláveis boquiabertas.  
Sentado à beira de um regato, na água cristalina, vi, contemplei, vislumbrei, levadas pela correnteza folhas, tristes folhas caídas no dorso oscilante das águas. Não lutavam; não protestavam... Que lhes importava o destino! Também eu, Senhora, me deixo levar pela correnteza da vida... Esquece-me de todo meditar e refletir nas circunstâncias e situações difíceis, o que elas significam na caminhada. Deixo-me ferir, magoar, perder-me, deixo-me angustiar.  Que me importa o fim que me espera, se de tão longe venho desejando-lhe? Que ironia, Senhora, penso às vezes haver deixado enterrado o meu sonho sob o que mais amei na vida... Nada mais sou que folha morta a rolar sem vida-velhice... 
O Espírito que havia operado em Vós a maravilha da maternidade era o mesmo Espírito que tudo guiava e ensinava. Foi o Espírito que moveu Isabel a dirigir-Vos aquela saudação com palavras realmente extraordinárias, e revelou-Vos coisas que Vós, como mulher, não podíeis saber se não tivessem sido re-veladas do alto.
Deus Espírito Santo comunicou-Vos, Sua fiel Esposa, Seus dons inefáveis, escolhendo-Vos dispensadora de tudo o que Ele possui. Deste modo Vós distribuís os Vossos dons e Vossas graças a quem quer, quanto quer, como quer e quando quer, e dom algum é concedido aos homens que não passe por Vossas mãos virginais.
A serpente... é-nos apresentada como o mais sabido dos animais, sabe também mais do que o homem, apenas ser vivo. A interpretação cristã, Senhora, a que nos foi transmitida na História, vê na serpente o símbolo de um mal separado de Deus, do homem, a figura da serpente levanta o problema da veracidade. Não fora a serpente que o disse: “... no dia em que comerdes abrir-se-vos-ão os olhos e haveis de ser como Deus e saber o que é bom e mau”. Ao comer da Árvore do Conhecimento, o homem continua vivo e acontece de fato o que anunciara a serpente: abriram-se-lhes     os olhos. Deus mesmo, Senhora, quando exclamara “eis que o homem se fez como um de nós e sabe o que é bom e mau”, disse-nos isto, mostrou-nos esta verdade.
Senhora, nesta neblina de imagens e Graças, nesta moldura de sentimentos, emoções, de querências as mais profundas e abismáticas, a verdadeira solidão tem como um de seus elementos integrantes a satisfação  e a incerteza que me vem de fato, de estar em face de uma possibilidade não real-izada. Real-izá-la, quem sabe, seria outro uni-verso em que as letras revelem as meiguices insolentes do eterno e imortal.
Na véspera de meu amor, Senhora, por quem transformou os re-versos de desditas e esperanças perdidas em in-versos de luzes, esperança e fé, eu era pouco, mínimo, pequeno, e sem sintaxe, imagens, figuras, sem estilo, sem linguagem, sem enredo, era um quase, uma parte sem outras, hiato de mim, aposto de outrens e outros inauditos, linguagem de perspectivas e imagens.  
No agora deste amor, Senhora, que me ensinastes a regar todas as manhãs com ósculos e afetos, ternuras e amor, acontecido em ponto cheio, texto com entrelinhas e recheio, com arrebiques e ornamentos. 
Ler deveria constituir um ato de homenagem a Vós, Senhora, quem abrigou, re-colheu, a-colheu no Vosso íntimo sagrado e divino a Verdade nossa, as Palavras que nos redimiriam de todos os pecados. Abrimos nossos horizontes na Bíblia, encontramos águas e alimentos, trigos e pães, para o nosso Espírito, nossa caminhada em direção à Vida; abrimos nossas almas, sedentas de libertação, de encontro com o que nos pode salvar, com o que nos pode redimir, através da espiritualidade das idéias e pensamentos que todas as obras trazem em si mesmas.
Tudo que diz respeito a Vosso Filho só podia fazer-Vos elevar um canto de louvor ao Pai do céu: este Vosso Filho une o céu e a Terra, o humano com o divino, nossa realidade natural com a realidade de Deus.
Diz a Escritura: “Tu és o meu filho, eu hoje te gerei...”. Comovia-Vos profundamente aquele re-novar-se dos acontecimentos divinos no tempo. Agora nasceria de Vós, como homem, Aquele que desde sempre havia nascido de Deus... Que mistério de amor e de fé! O verbo de Deus nos céus é fonte de sabedoria, seus caminhos são os mandamentos eternos. A quem foi re-velada a raiz da sabedoria? Quem pode discernir os seus artifícios? A quem foi mostrada e re-velada a ciência da sabedoria? Quem pode compreender a multiplicidade de seus caminhos? Somente o Altíssimo, criador onipotente, rei poderoso e infinitamente temível, Deus dominador, sentado no seu trono; foi ele quem o criou no Espírito Santo, quem a viu, numerada e medida; ele a espargiu em todas as suas obras, sobre toda a carne, à medida que a repartiu, e deu-a àqueles que a amavam.
Canto a Vossa glória, Senhora, minha doce Mãe, canto um cântico em Vosso nome, abro caminho para o que em Vosso burrico avança pelo deserto. Mãe Santíssima é o Vosso nome, exulto-me em Vossa presença.
A sabedoria é um espírito que ama os homens, mas não deixará sem castigo o blasfemador pelo crime de seus lábios, porque Deus lhe sonda os rins, penetra até o fundo de seu coração, e ouve as suas palavras. Vós penetrastes fundo em minha alma, con-templastes-me as esperanças e fé, vislumbrastes-me os sonhos e desejos de paz, de espiritualidade, insuflastes-me os dons e talentos, para que pudesse revelar aos homens o que a vida me ensinou em sua caminhada. 
Na gruta de Belém, Vós notáveis que ia se aproximando o momento de dar à luz. Esperastes as dores habituais do parto, o nascimento normal de Vosso Filho. Mas, sobretudo naqueles momentos, Vós pensáveis que o Filho que estava para nascer era o Filho do Altíssimo, que tinha uma origem eterna.
Todas as montanhas as mais altas, todas as esperanças as mais difíceis, todos os caminhos os mais longos... Que em tudo isso realize no maior Clamor a Glória do Amor e da Vida, mas que ao fim ainda continuo buscando. Há esta oração, outra em que me dirijo a Deus, Senhora, penso ser bem mais fácil dirigir-me a Vós, pedir-Vos isto e aquilo, iluminai-me, protegei-me, Vossas bênçãos, que me dirigir a Deus, com a mãe é sempre mais fácil de lidar, realiza nossos sonhos com mais rapidez, e inclusive que não preciso de rezar as orações tradicionais, embora reze quando aqui à igreja venho para rezar Ave-Maria, Santa-Maria, aprecio-as pronunciar, dirigindo-me a Vós,  e aí a continuidade da terra e da vida. Há no seu horizonte o sem-fim do meu grito, na perpetuidade da Cruz e do Tempo.
Deus tem pleno sentido, Deus só tem sentido existencial se for resposta à busca radical do ser humano por luz e por caminho a partir da experiência de escuridão e de errância, de solidão e sombras. Ou simplesmente pela experiência iluminadora de sentido que deriva da vida, da majestade do universo, da inocência dos olhos da criança.
Bendito é o fruto de Vosso Ventre, Senhora!... Bendita a Palavra de Vosso Útero!...
Cintilâncias de um rosto, de uma face sagrada, de um semblante outro ao amanhecer, traços, fissuras, falácias num jogo diário de perfis. Desfile de olhos, trejeitos, exercícios de imagem para a vertigem sem volta de quem vê.
Amo a noite, Senhora, amo este momento sublime, a Hora do Ângelus, na luz do sol divino, na anunciação da noite, das trevas...  Pude ver no meu caminho um anjo de caridade... o seu rosto irradiava uma ternura sem fim, de uma fraternal bondade.  Os cabelos e olhos negros contrastavam com a sua alma; neve caída do céu, para os desafortunados, infelizes, e aos marcados pelas provações do mundo amenizar os seus ais, uis, ohs. Pude ver a luz nos olhos de uma mendiga velhinha, corcunda, sempre carregando sua sacolinha, de cabeça baixa, olhando para as pedras em seu caminho, quando tirei do bolso esquerdo da calça algumas moedas e lhe de-positei numa de suas mãos que me estendera para receber a minha caridade. Tomaria o seu cafezinho naquela manhã tão gelada.
Quanta vez ficamos com vergonha de nós mesmos e de Deus, da Senhora, por nossas escorregadas, deslizes em pensamentos, sentimentos, palavras e comportamentos! É uma realidade, somos fracos e miseráveis. Mas é justamente reconhecendo e aceitando esta nossa realidade, e nos lançando nos braços fortes e inexpugnáveis Vossos que seremos fortes. Vós sereis nossa força sempre e nossa única esperança, como dizia S. Bernardo.
Quando S. Paulo,  já cansado de lutar, implorou ao Senhor que o livrasse de seu “espinho na carne”, o que ouviu do Senhor? “Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta totalmente minha força”. E o Apóstolo tanto entendeu a lição do Mestre, que também se fez fraco para salvar os fracos, e disse aos coríntios: “Alegro-me em minhas fraquezas... Porque, quando me vejo em fraqueza, então é que sou forte”.
A pessoa mais forte é aquela que, por conhecer e aceitar suas fraquezas, com realismo e tranqüilidade, sem desesperos e revoltas, abriga-se permanentemente nos braços e no Coração de Jesus por Vosso intermédio, Senhora. Com Vossos pés virginais a pessoa saberá pisar constantemente a cabeça do tentador, para que não nos assalte.
São Boaventura nos ensina que Vós estais não só detida na plenitude dos santos, mas também guardais e detendes os santos na plenitude para que essa plenitude não diminua; impedis que Vossas virtudes se dissipem, que Vossos  méritos pereçam, que se percam Vossas graças, que Vos prejudiqueis os demônios. Impedis, por fim, que Nosso Senhor castigue os pecadores.
Interessante, Senhora, logo que a igreja abre, esta velhinha está ajoelhada rezando a Deus, pedindo-lhe a proteja até ao fim, espera a livraria abrir às oito horas, passando por lá, dando uma voltinha, olhando os livros, as imagens, os quadros. Segue o seu caminho pedindo e recebendo das pessoas a caridade. Perguntei à vendedora se ela pede esmola. Disse-me que jamais o fez, ela é que às vezes dá-lhe um trocado, sussurrando, humilde, roga a Vós que a proteja e ilumine, dê-lhe o dobro. A mendiga velhinha apenas dá voltinhas na livraria. Se eu percebesse, depois de sair, começa a sua andança por todas as ruas, becos, alamedas, avenidas, caminhando lentamente. 
Deus olhou suas criaturas e com divino e paternal cuidado constatou que a solidão não lhes faria bem, não realizaria suas vidas. Olhou-as com olhar preocupado, sentimento de alguém que só quer o melhor para elas, pois na vontade divina não cabe a solidão.
Con-templo agora nós, geração marcada por estar assim, tão só. Mergulho em alguns temas procurando respostas... Vejo a solidão com três faces: a primeira, espiritual. Quanta gente só, diante do mistério, diante do inefável, diante da Vida. Não escuta Deus, não fala com Ele, não o encontra, não o pensa, e ainda tem a petulância de ser ateu, o maior inconsciente é aquele que negligencia a inconsciência divina. Falar de Deus os homens somos capazes mesmo sem palavras, mas falar com Deus é necessário haver palavra que possa Ele ouvir, e esta só poderá ser dita através do Amor e da Compaixão. Que solidão terrível, esta: a criatura des-encontrada do seu criador, semente sem campo para germinar, alma que não encontrou o caminho da própria casa.
Amo a noite solitária e muda nos acessos de delírio, na luz do sol divino, quando no vasto céu fitando os olhos, além do escuro, tinge-me a face. A voz nos lábios, a paixão no peito...
Vem a noite após o dia, vem a manhã de cânticos e de silêncios, eleva-se, aos céus remontam ardentes, altivos, entre miríades de estrelas distantes de nossos olhares e visões, retratando imagens do infinito. Vem o sofrimento após as alegrias, vem a desdita após o encontro, e, nas prefundas da alma, o que me resta, resta-nos aos homens que contemplamos o desejo do sublime, contemplamos a sublimidade nos olhares que de-positamos nos horizontes que se anunciam, no universo a perder de vista, nas ilusões perdidas, nas quimeras que se esvaíram, nenhum vestígio nas dobras do tempo. Vem a vida após a morte.
Ah, Senhora, se ora sinto as palavras faltam-me, se me equivoco quando penso serem sentimentos reais e profundos, anunciações e revelações de horizontes por onde vislumbrar outras veredas por cujas trilhas andar, no espírito as flores viçosas, promessa de beleza e esplendor, serem apenas imagens que clamam por realidades sensíveis, sim – e devo confessar-Vos o peito esvazia-se, sensações medíocres e estranhas perpassam-me a carne, quero ser nada, nada de ser o que em mim “é”, nada de sentir o que em mim vai dentro, o que me perpassa o íntimo. Tomo alguma vez o tempo para refletir, mesmo por um momento porque é o Verbo que salva, redime, é o Verbo que nos alimenta e sacia nossa fome.
  Tornastes-Vos, Senhora, serena e meditativa, percebi em Vossa face tais mudanças, dizendo-Vos as palavras faltam-me, sou desejos efusivos de liberdade, de beber a última gotícula de vinho na taça das esperanças, pois que são elas pedras angulares do eterno que me habita. São elas que eternizam a Vida. Os homens todos desde primevos tempos diziam ser a esperança a última que morre, transcende-nos. Por mim, não o digo assim, digo que a esperança é a última que vive, só ela pode nos despertar aos olhos da eternidade, do imortal, só ela nos concede a imortalidade, nos con-sente a eternidade, nos lega a Vida eterna. Creio que cumpro a minha parte neste sonho, utopia, cuido que esteja sempre presente não apenas nas letras, na vida mesma.
Talvez tenhais se tornado serena e meditativa, pois que esperava dissésseis  o que me trespassava o espírito e a sensibilidade, dizendo as letras faltavam-me, o que desejava dizer com isso: “Filho, explique-se melhor!... Você pode fazê-lo”.
Por que não assumir o êxtase, estesia, exultância que me invadem o peito, a alma e espírito? A comadre ligou-me ontem para parabenizar-me pela maravilha da minha oração a Deus, obra-prima de verdade. Estava de parabéns. Senti-me real-izado, mais um sonho estava sendo concretizado, e o mais importante para mim é que fora criado com a minha vida, meus esforços, lutas, sofrimentos e dores. Havia ela perdido o meu endereço, queria sabê-lo, para que me escrevesse uma “cartinha”. Disse à minha doce-companheira-e-esposa que era engraçado haver escrito uma oração, tornado-a obra-prima, se não tinha intimidade com Deus, é con-Vosco que me sinto íntimo, digo-Vos minhas coisas íntimas com espontaneidade. Esta minha oração a Vós teria então de suprassumir a que escrevera a Deus. Disse-me ela que iria conseguir, realizaria o sonho da “maternidade-espiritual” dos homens, seria agraciado por Vós com a sensibilidade de Mãe. Ri, sorri, senti-me exultante. Obrigado, Minha Mãe querida e amada, por esta sensibilidade, por esta espiritualidade através das letras, do Vosso Amor, do amor de minha senhora, da vida que ora só significa real-izações e alegrias, felicidades e contentamentos. Obrigado por minhas letras!...
Cruz!... Cruz do Calvário! Cruz que levo nas costas, re-presentação, símbolo, signo, Verdade, para que na entrega absoluta e total aos homens, mostre-lhes outros caminhos de Veredas por onde alcançar a tiara que os glorifiquem a tiara da liberdade e do esplendor.
Dizer-Vos, Senhora, dizer-Vos Senhor Nosso Jesus Cristo, que o silêncio precede os sinos não é ser filósofo, teólogo, não é ser sonhador e nem positivista, não é ser ilusório ou pragmático, é ser sincero e real, depositei a cruz no lugar que me fora indicado por Vós, sofri as dores e torturas, flagelações todas, antes e depois de meu último suspiro; em suma, não é tecer arrebiques e ornamentos, é saber que os frutos da Vida e da eternidade são sentidos no paladar, gozo as delícias de outroras e sonhos meus.
Trêmula fímbria de loucura, de febre além de humana, os olhos sofrem, o sol estilhaça-se na neblina. Tépida essa mão que divaga devagar, ao impasse lógico do bicho-preguiça, por meus relevos óbvios, demoram fundo no obscuro ponto onde o corpo se abisma, e silencia absurdo.
No Vosso seio, oh, Virgem Pura, se encarnou divina graça; em Vosso ventre entrou e saiu de Voz, como o sol pela vidraça aberta a todos os horizontes e universos. Em que ondas banhar as águas que seguem seus cursos, em busca do mar, do absoluto, de todas as águas misturadas às circunstâncias e pães de outros dias nossos?!...
Sorrio, Senhora, e sei que me compreendeis, mas se trata de chamar-Vos a atenção para o que estou dizendo. Compreendeis, enfim, as alamedas em que me desloco passo a passo nas pedras, poeira e chão... Em que curso banhar as águas do absoluto?! - essa miscelânea em que me encontro, perco-me, e, perdendo-me, encontro outros becos em que arrastar até a luz do novo dia. Em que vias de antemão e percurso, em que senti na carne as sensações de sofrimentos e dores, as aparências e realidades que se encontravam de lado, costelas unidas, corpos desnudos... A face do sono e até Orpheu, des-nudos ao limite de algemas e venenos, transparentes à luz de nossos mistérios e enigmas por todo sempre habitantes, e quase nunca se re-velando, nossos vazios e esperanças olvidados e recusados, sem piedades e comiserações, Senhora! O que mais me admira envolve, que mais me assusta, dá-me náuseas... Em que ondas banhar as desilusões, infortúnios, destinos nossos que se revelam nos encontros e des-encontros da teia que a aranha ao longo do tempo tece, ao longo de sentimentos de luzes que me habitam, e são vividos e experienciados nas asas do tempo e no tempo de calmarias, tempestades, bonanças?!...
Disse-Vos tantas vezes que, acredito, perdeu no tempo e nas situações o sentido profundo, a mensagem revelada, apesar de que busco no mais íntimo de mim regar com outras experiências vividas, conhecimentos que vou adquirindo com as minhas leituras, na relação com os íntimos, amigos, conhecidos, sobretudo com a minha doce-companheira-e-senhora. Disse, Senhora, que o amor só vive de entregas, doações. Neste instante em que me desnudo inteiro, mostro-Vos a minha alma, sem pejo, vergonha, medo, sem sentimento de culpa, remorso, estar em pecado, não poderia deixar de tecer considerações no que tange a este dizer, que, aliás, libertou-me de muitas angústias, tristezas, desconsolos, contundentes e pujantes depressões, que só se amenizavam, mostravam-me outros universos, se deixasse a água do chuveiro cair em meu corpo.  
Mesmo que não fosse homem de letras, teria de assumir os homens somos seres-para-o-livro, pensando apenas na Bíblia. A verdade é que sempre senti carência em torno de mim, e vi se cristalizar em gelo a atmosfera que antes supunha tão aquecida de afeto – encontrei nos livros amor, solidariedade, compaixão, dimensões Vossas, Senhora, que só se tornam reais, são verdadeiras, se são entregues aos homens.     
Subo a rampa da igreja – não penso. Uma voz obscura, ouço-a – que mais? Sê quem sois, aquém das razões, além dos motivos e princípios, sê na Iluminação do Útero.
Mas, quando chego à porta da igreja, um sussurro dócil e gentil, agudo e estrídulo, queima-me as pupilas na estridência da luz. A toda roda o silêncio, nas vagas de chuva, pela massa da montanha. Entro na igreja, um clamor irrompe: “AVE MARIA!...”.
“Amém”.





Nenhum comentário:

Postar um comentário