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terça-feira, 24 de novembro de 2015



O  Profeta diz a todos: “Eu vos trago a Verdade”, enquanto eu, humildemente, com efeito a ojeriza à prepotência obriga-me a sê-lo, limito-me a dizer a cada um, a todos que me ouvem nestas linhas: “eu vos trago a verdade minha”. O “minha, pronome possessivo, poderia haver sido retirado – aliás, a presença da primeira pessoa dos pronomes do caso reto, “eu”, o mesmo dos possessivos, “meu, minha, meus, minhas” são condenados nos textos, quanto menos forem usados melhor será -,  mas o ouvido não discerne “verdade” com letra minúscula, “Verdade” com maiúscula; a primeira é dos homens, de cada um em particular, sujeita a questionamentos, restrições, censuras, é subjetiva, a segunda é a de Deus, a absoluta, espiritual, a que redime os homens dos pecados, culpas, a que salva, a que ressuscita, pede ao homem a sua fé e esperança, os homens, desde tempos imemoriais até não mais existirem ou forem esquecidos, estarão em busca dela. Para mim, o encontro da Verdade de Deus só se efetivará com o encontro da verdade de cada um, esta é mais difícil, complexa e complicada, exige o que o homem não está preparado para fazer, mergulhar em si próprio e assumir-se com dignidade.  
Não houvesse discernido, todos diriam com propriedade: “Diz ele da ojeriza à prepotência, mas se julga, pensa e sente ser Deus”. Tal fala não é verdade, não teria condições de sê-lo, ninguém consegue esta façanha, poderia entregar-me ao sonho do homem-Deus a que me fui vocacionado, mas estou bem longe disso, nem sei se isto me será possível real-izar. No ouvido, não há letras, palavras, há sons que as representam.

Real e verdadeiro
Sou eu em mim...
Sinto ou penso,
Penso ou sinto,
Sinto e penso,
Ser poeta?
Res-posta mostra
Dúvidas ad-jacentes
De razão e sensibilidade
Nos versos do eu
E dos verbos que me fazem


O poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano, o que é de sua condição e natural, e mesmo assim esta compreensão requer questionamentos e reflexões os mais di-versos. Eu, quem escreve poemas, não me julgo, sinto ou penso ser poeta – faço-o apenas por di-versão, espairecer as idéias, apesar de que há quem os aprecie verdadeiramente, já recebi inúmeros reconhecimentos, agradeci, prometi continuar, mas não gosto, as dificuldades deixam-me angustiado e desesperado -, seria muita pretensão de minha parte, quanto mais fiel às minhas experiências, dores e sofrimentos, problemas e conflitos, traumas, medos, pecados, culpas, medos, desejos e vontades, felicidades, alegrias(inda que efêmeras), mais real e verdadeiro sou em mim, só venho a entender o que é essencialmente condicional da vida (refiro-me à condição de homem e prosador, isto sou sem qualquer pretensão ou vaidade chinfrim; não apenas pelo dom e talento que me foram legados, mas pelas experiências e forças de vontade, insistência, persistência em expressar-me, comunicar-me, já que sempre homem sozinho, de poucas, muito poucas relações, o medo que habitava em mim de abrir-me, e não ser compreendido, ser, ao contrário, mais discriminado ainda; por esta razão, sempre busquei a linguagem e estilo que agradassem a todos, tocassem os leitores sensivelmente; não me importaria se não aprovassem minha vida, comportamentos, atitudes, gestos, caráter e personalidade, desde que amassem os meus escritos já estaria satisfeito e feliz). Embora, acredite quem não quiser fazê-lo, creia quem quiser, não há qualquer obrigação ou imposição nisto, não contesto o livre-arbítrio, eu que o diga, seja tão difícil ser assim tão autêntico. Se eu fosse ser sincero mesmo, além de todas as arribas e fronteiras, aquém de todos os confins e obstáculos, não teria mais quaisquer vestígio ou miríade de miolo dentro da cabeça, teria de assumir estar mesmo vazia, de tanto espremer os miolos com intenção de ser autêntico, o que salva minha cabeça de ser oca é que a autenticidade é adquirida na continuidade das experiências da vida, linguagem e estilo, em busca do “Ser”, que só se efetiva com a morte, aí a obra será completa. Às vezes, assalta-me o terror de que minha obra é puro intelectualismo, nada há nela de sentimentos, emoções, espírito, desejo da sublime verdade, eu que sempre senti profundo a intelectualidade é que me garantiria a eternidade, que me salvaria de uma vida imbecil, corroendo as dores e sofrimentos, conflitos e traumas adquiridos, carências, discriminações; às vezes, invade-me o medo de meus escritos não terem quaisquer linguagem e estilo de alma e espírito, sou um hipócrita, falso, aparente, a farsa habita-me o mais íntimo, não o conheço tão bem, acredito que sou sincero e digno, e na verdade isto é tripúdio, enganação – que escritor sou eu, meu Deus, nada tenho a dizer aos homens que lhes mostrem outros uni-versos e horizontes da vida!). Nada há de mais difícil e angustiante do que saber haver uma missão a ser cumprida e não a estar realizando. Se a missão fosse para mim apenas, realizá-la ou não pouco importaria, mas ela é para o outro, para os homens, quanto mais no que diz respeito às artes, que são o húmus da liberdade e da felicidade, juntamente com a religião, a responsabilidade é imensurável.
A luta é constante. A minha está durando a vida inteira, durará enquanto for vivo. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos, confesso não haver ainda lido qualquer comentário, ensaio a respeito dela; é quando Jacó entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”.  Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do artista com as palavras. Não as largarei enquanto não me abençoarem, dizerem-me com categoria e sinceridade que se sentem realizadas com a vida que lhes doei com os meus esforços, entrega absoluta, dizerem-me “pode descansar agora; através de você seguimos a nossa trajetória em busca de nosso templo”. Não me perguntem, porém, a técnica desta luta sagrada ou sacrílega. Cada artista tem de descobri-la, lutando, suando, angustiando-se, sofrendo, os seus próprios recursos. Os meus sou eu, advêm de minha caminhada no mundo, de minhas neuroses as mais profundas, de minhas buscas e desejos, esperanças e fé. Não me enveredo pelos truques da moda, tramóias das idéias e interesses, enganam os leitores, trazem-me efêmera glória, fugaz popularidade. Só os cretinos vivem por elas, sentem-se recompensados com a luta que empreenderam. Morrem, em pouco tempo serão jogados no esquecimento, não contribuíram com nada, nada fizeram pelos homens, pela humanidade, fizeram para justificar os sofrimentos e dores, para alimentar as vaidades.
Tive a vantagem de nascer numa época em que a cultura passa por despautérios e cretinices as mais variados, em que as vaidades estão à solta por todos os cantos, o importante são as glórias. Uma bela ginástica safar-se disso, enveredar por outras veredas, ser diferente. Da mesma forma que as crianças de minha época aprendiam nos cadernos de caligrafia – os famosos cadernos de duas linhas, por ter uma caligrafia horrorosa escrevi muito neles -, para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da individualidade, eu digo que só tem capacidade e moral para criar uma obra quem for capaz de ser ele próprio. Os cadernos de duas linhas não me proporcionaram a caligrafia que tenho hoje, o ato de manuscrever é que ma legou com eficiência, acredito mesmo que ao longo de minhas descobertas íntimas é que a caligrafia foi melhorando, foi atingindo a sua forma própria, ela reflete os sentimentos e emoções que em mim trago dentro, a espiritualidade que me habita, desejos e vontades, fé e esperanças.
Leitor, se este templo da sublime verdade está a aborrecer-vos – enfim, parece-vos que a minha intenção é chamar-vos a atenção para a vossa autenticidade convosco mesmo, libertar-vos das correntes e algemas das aparências, hipocrisias, farsas, falsidades, safar-vos dos interesses espúrios, largarem-vos mão dos prazeres materiais, das modas de nossa modernidade, viverdes de quem sois sem vergonha, medo de incompreensões, da solidão -, se está a deixar-vos com as orelhas atrás das pulgas, como isto é possível de ser realizado, que veredas devem ser trilhadas para esta façanha; se estais a indagar, perguntar, questionar a profundidade de meu ser no não-ser que sou, de quem não sou na percuciência do ser que pro-jeto nas letras, palavras, prosas de pó-emas, pó-emas de prosas, sois poetas mesmo, habita-vos os sonhos, quimeras, fantasias, tão queridos pelos poetas, habita-vos a sublimidade da vida, talvez não sejais capazes de pro-duzir poemas clássicas, fazer versos livres, mas podeis pro-duzir vida, sentimento, emoção, espiritualidade, que nós os artistas muitas vezes só o fazemos numa folha branca de papel, na vida mesma não somos capazes. A semente virgem e natural da vida que acontece no desejo e vontade de outra realidade vós trazeis dentro em vós, resta-vos apenas entregar-vos de corpo e alma à vida, à busca da sublimidade, da verdade. Isto não custa nada, se custar é menos que um centavo, custa a entrega aos “sonhos do verbo amar”, a fé e a esperança de que isto é possível, a única verdade vossa é vós mesmos.
A vida está a dizer-vos no silêncio desta leitura, e vós já percebestes, só que desconfiais são vozes de minhas entrelinhas, são vozes de meus sentimentos e emoções que alimento no íntimo por vós. Mas isto não é verdade, caríssimo leitor. É a voz da vida que ouvis:

Entrai em mim
como uma música de Vivaldi,
enquanto é primavera,
o perfume das flores
embriaga o mundo e as coisas,
enquanto a beleza da natureza
ilumina o uni-verso,
enquanto o amanhã
trará outras flores e perfumes
mais lindos e doces de inalar,
enquanto o mundo não poluir
os sons do infinito.
Não fiqueis aí como  decepcionados
com as perdas e ausências,
fracassos e frustrações,
medos e relutâncias
à beira de um rio ou de um abismo,
de olhares menores
de brilhos quase imperceptíveis,
sentimentos tristes, desconsolados,
desolados.

Sou bela
como o imprevisto perfil de um flamboyant
Ao primeiro relâmpago da tempestade;
sou louca
porque as minhas pobres vestes
são do tecido da eternidade
são das linhas do horizonte,
são das agulhas do uni-verso.
Sou uma rapariga na idade da flor,
e estou cantando em torno de vós:
“ficai ao meu lado;
 daí-me as mãos para seguirmos juntos
 em direção ao templo da sublime verdade,
ao mistério tão sem fim do desconhecido
vogando, lento, à deriva
nos rios todos do mundo.
Cantemos em uníssono
na própria luz consumida
o cântico do milagre das mãos
que, postas ao infinito,
à eternidade,
transcende-me,
eleva-nos à esperança e amor.

Queria trazer-vos um cântico de versos lindos
Colhidos nos  mais profundos interstícios de mim.
As palavras seriam as mais sensíveis,
Amáveis do mundo,
Porém não sei que luz as iluminaria
que teríeis de  fechar vossos olhos para as ouvir
neste cântico de versos lindos,
ternos, amorosos, meigos, compassivos,
solidários.
Sim! Uma luz que viria de dentro dele,
raios que viriam de dentro deles.

Deixai-me segredar-vos
Um dos grandes segredos do mundo:
- Essas coisas que parece
Não terem qualquer sentido, qualquer beleza,
qualquer mensagem, qualquer cântico
de amor, de sublimidade
é simplesmente porque
não houve jamais quem lhes desse ao menos
um segundo olhar!
Se, às vezes, vós perdeis a paciência comigo,
censurais-me, xingais-me,
não vos dou qualquer oportunidade
de outras realidades, de outros horizontes,
de outras verdades,
é que ainda não compreendestes
que a felicidade está dentro de vós,
só vós podeis sorrir de alegria e contentamento,
se me olhardes com os olhos da esperança
e fé.

Deixai a canção nascer dentro de vós como rumor
de águas cristalinas,
nascer o cântico do amor
como um vento despertando as folhagens...
Não vem de supetão, vem de longe e de muito tempo.
Como é que tendes de súbito esta serenidade
de quem recebesse uma hóstia sagrada em plena desgraça.
Deve ser de versos que lestes e nem vos lembrais,
de telas que vistes, de músicas que ouvistes,
de sorrisos que percebestes nos lábios de uma criança,
de brilho que vistes nos olhos de um homem
que me contemplou com sinceridade e amor
Às vezes,
No chão do rumoroso deserto em que pisas,
brota o milagre da canção
no fundo da solidão inquietante
em que vós debateis nalguns instantes
de vossa vida
nasce a verdade do Ser. 

Ouvi uma amiga dizer
Ao amigo querido:
“Tudo passa, tudo passa,
tudo passa, tudo passa...
Será ainda muito feliz
em sua vida!”
Acreditou nestas palavras
vindas do mais profundo do
coração da amiga,
e hoje segue seus passos
feliz e contente,
até escreve versos
que alimentam as esperanças
dos homens.


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