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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O PROBLEMA DA VISÃO DE MACHADO DE ASSIS - Manoel Ferreira Neto.


O tempo não corre em vão para os que desde o berço foram condenados ao duelo infausto entre a aspiração e a realidade.
(Machado de Assis)

Desejamos, neste ensaio, como paradigma, o problema da visão de Machado, porque, tendo embora atuado em outro tempo, viveu, para atender a todas as exigências – e não eram poucas – do trabalho literário, acumulado com o de modelar burocrata, a “vertigem ocular” dos tempos presentes.
O mestre, gênio das letras pátrias, adquiriu a miopia no ofício tipográfico, em que se iniciou nos albores da adolescência. Aos vinte e cinco anos de idade, a pena de Henrique Fleiuss principiava a caricaturá-lo com o pince-nez oval que o acompanharia depois, orientado sempre para a posição da escrita e da leitura.
Com as solicitações financeiras decorrentes da formação do lar, o trabalho visual foi intensificado; sofreu, ao ingressar na maturidade grave crise de neurastenia[2] ocular. Aos quarenta anos, Machado, um quarto de século após a descida do morro, reentrava, forçadamente, em contacto com a higiene mental e ocular.
Sob um ângulo de visão – existem inúmeros em nossa modernidade, isto é, são muitos os fatores que prejudicam a visão -, a leitura e a escrita constituem flagelo relativamente moderno da fisiologia ocular. A civilização grega consagrou a tradição oral. Jesus Cristo nada escreveu. Usou sempre a palavra, o Verbo do Sermão da Montanha , no qual antecipando-se de dezenove séculos à medicina clínica advertiu a impossibilidade de um corpo sadio portador de olhos doentes. A sabedoria bíblica alude ao “enfado da carne que é o muito estudar[3], e o Gênesis denuncia a primitiva intenção divina de amena utilização ocular na vida humana. Depois foi decidido que com dor passássemos a comer os frutos da terra...
Apresentamos o paradoxo de um país portador de elevadíssimo índice de cegos, de incalculável número de doentes dos olhos e de reduzido corpo de oftalmologistas. O problema da higiene ocular apresenta aspectos diversos, consideradas as populações do interior e dos grandes centros. Nestes é mais violenta a agressão à fisiologia ocular, e a crescente industrialização do país reclama a difusão de ensinamentos preventivos.  O problema da higiene visual é, assim, uma questão de foro íntimo de quantos usam ostensivamente os próprios olhos ou têm os alheios sob a sua responsabilidade. Entre os primeiros contam-se os que exercem as chamadas “profissões visuais”, os administradores, públicos e particulares, advogados, escreventes, médicos, escritores, bancários, professores e tantos outros.
A tragédia ocular de Machado não se resume apenas nas conseqüências do uso imoderado dos olhos. Este foi o principal fator. No domínio ocular, coincidindo com a eclosão da genialidade, outra causa agravou o abuso a partir dos quarenta anos: o desajustamento da correção que usava para a anomalia visual.
Ligado a outras causas o sofrimento ocular determinou a genialidade no talentoso Machado de Assis. É uma compensação desinteressante para todos nós, que seguimos a nossa vida sem cogitar de ser gênios... Mas a fisiologia ocular daqueles a quem Deus tocou com a genialidade não difere da nossa. Agora temos uma compensação interessante de que se podem extrair ensinamentos de ordem prática.
Há indício da presença de assimetria da córnea, também não corrigida nas lentes do singelo pince-nez. O rudimentar instrumento ótico, utilizado segundo as gravuras e fotografias conhecidas, para a visão dos objetos próximos, deveria ensejar, para longe, baixa agudeza.
As referências ao estado ocular do mestre são freqüentes em prosa e em verso, quer na sua correspondência e outros documentos de natureza íntima, quer através dos personagens autobiográficos. Há também alusão de outrem aos seus perfeitos olhos da juventude.
Míope de longa data, portador de complicadas anomalias não corrigidas, astigmata e anisométrope, a neurastenia ocular culminaria fatalmente, ao dealbar da maturidade, em conseqüência do intensivo e desajustado esforço visual de Machado de Assis. Os astigmatas que tiveram a ventura de fazer corrigir a incômoda ametropia encontram-se em condições de estimar esse aspecto parcial do perene sofrimento ocular do grande romancista.
O  “equilíbrio perfeito” do Memorial foi obtido quando os olhos malferidos do escritor se achavam embotados pela cegueira noturna e pela catarata; ao revés, o Brás Cubas é produto esporádico de um instante de angústia visual, sendo de adotar o conceito de que constituiu um momento da obra machadiana, não a sua filosofia da vida. Esta, como observou Nabuco, deve ser aferida pelas últimas produções, quando, amortecidos e semi-cegos, os olhos do beletrista, com a baixa proporcional do desajustamente, havia serenado a inglória tarefa de “espinha irritativa” do gênio das letras. Simultaneamente atenuaram-se as crises epilépticas da maturidade, agora, com precisão científica, rotuladas de ausências nos apontamentos machadianos.
A perda dos olhos afigurava-se-lhe a ruína da própria personalidade, assim tolhida do seu mais vigoroso meio de expressão: “Há um olhar digno, desses olhares que parecem vir das estrelas, qualquer que seja a estatura da pessoa”, - destacou algures, numa frase em que a fisiologia ocular jamais encontrará tão alta destinação espiritual, mesmo na opulenta obra em que o grande estilista atribuiu sempre a “nota dominante” ao sentido visual.
As precárias condições oculares de Machado de Assis impediram-no de engalanar a obra imortal com as festejadas belezas da sua terra, de outro modo celebradas pelo gênio do estilo; privaram as letras brasileiras da obra-prima definitiva do mestre, o “outro Eclesiastes, à moderna”, que ele no Memorial manifestou a intenção de escrever “se não tivesse os olhos adoentados” (pág. 127); o próprio Memorial experimentou também a reiterada ameaça de interrupção por motivo dos “olhos cansados, acaso doentes” (pág. 126).
Com todas estas limitações, surgidas na juventude e agravadas na maturidade e na velhice, com reflexos sobre a feição literária indecisa, que assumiu o caráter pendular, copiando as crises antagônicas da doença do escritor, a quem tudo se afigurava “contraditório e vago”, como ao personagem de Goethe em cujo seio moravam “duas almas”; tipo de errata pensante, continuamente a corrigir-se; a despeito dos mais rudes obstáculos, dominou-os todos e superou-se a si próprio, pulverizando em definitivo, com a modéstia da origem, as infundadas teorias racistas.
Este modesto ensaio tem sentido e intenção. Dirige-se aos que lutam com os olhos para assegurar o sustento do corpo e, também, aos discípulos do Mestre que vivem pelos olhos cultivando as belezas do espírito.
O melhor depoimento de Machado de Assis sobre a normalidade dos seus olhos infantis encontramo-lo no inexcedível Conto de Escola.
O ensinou escravizou sempre o aluno a obrigações extra-naturais.
O pequeno Joaquim Maria informa: “A escola era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau”[4]

Naquele dia – uma segunda feira, do mês de maio – deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar amanhã. Hesitava entre o morro de S. Diogo e o Campo de Sant´Ana, que não era então esse parque atual, construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos. Morro ou campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razão.
Na semana anterior tinha feito dous suetos, e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim uma grande posição comercial, e tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava-me nomes de capitlistas que tinham começado ao balcão. Ora, foi a lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio. Não era um menino de virtudes[5].
  
E prossegue:

Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados da escola; mas era. Não digo também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção. Note-se que não pálido nem mofino: tinha boas cores e músculos de ferro. Na lição da escrita, por exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no papel ou na tábua, ocupação sem nobreza nem espiritualidade, mas em todo caso ingênua. (...) Os outros foram acabando; não tive remédio senão acabar também, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar.
Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano. Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do Morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma cousa soberba. E eu na escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos[6]

O mestre, absorto na leitura dos jornais, ás vezes fitava-o e ao filho. “Mas nós também éramos finos; metemos o nariz no livro, e continuamos a ler”.
Dois detalhes ressaltam  do depoimento: 1º) a visão perfeita do brinquedo ao longe, através das vidraças; 2º) a aproximação excessiva dos olhos no estudo, metendo o nariz no livro. Este fato, prejudicial à conservação do primeiro, marcaria o início do abuso ocular, começo da miopia adquirida no trabalho visual contínuo, de perto.
Evidentemente não engrossava Joaquim Maria a ociosa legião dos moleques, os “meninos vadios”, infensos à escola, “o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e gênero humano”. 
Também não era nenhum tímido, condição que a vida lhe imporia depois. Já ficou visto, pelo depoimento autobiográfico, que não seria um menino de virtudes. Esse período da existência, por um fenômeno psicológico conhecido, constitui aliás o que mais fortemente se fixa na memória: “eu não esqueci coisas que só vi em menino” (Brás Cubas). Perpetrava as suas façanhas, algumas de surpreendente ousadia. “Devo crer que eram expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e se ás vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos” (Memorial de Aires)
O pince-nez que não podia mais dispensar, como nos belos tempos das “Crisálidas”, ó tempos! ó saudades – e que a intervalos freqüentes o levava ao ótico da vizinhança, para aumentar-lhe o grau, advertia-o expressivamente quanto á progressão do estado ocular[7]
Aquele pince-nez oscilante estaria correto? Que espécie de lentes lhe arranjara o ótico? Seria igual a miopia em ambos os olhos? Não haveria outro defeito visual, além deste? É improvável que tais indagações lhe houvesse perpassado a mente em brasa. Se chegaram a esboçar-se, incendiaram-se de certo no vulcão interior. Prestes vomitaria cinza e fogo, na convulsão dos nervos estasados.
O cérebro estalava. Fantasmas angustiantes o perseguiam. O literato que no qüinqüênio anterior desdenhava das criações próprias, semeando o terreno, agora entregava-se à colheita com a “sublime ansiedade dos moços. Seria um moço?
A medicina prognosticou o que a intuição fizera prever: doença crônica. Aos trinta e dois anos o espírito supernormal encalhara no corpo enfermiço que o chibatava. Acessos freqüentes de neurastenia ocular sacudiam o frágil organismo, num estremecimento forte. Sobrevinham as crises. E o cérebro excitado, “alma curiosa de perfeição”, qual bolha de orvalho, saltitava do incêndio dos olhos para o incêndio dos nervos.
Depois da doença, o gênio das letras, o escritor de talento capacitou-se gradativamente da genialidade. O embotamento da visão para longe e a estranha sensação interior de aumento da agudeza mental, faziam-no dobrar-se, maciamente, sobre si próprio...
Os olhos míopes criaram o bicho de concha. Adoeceram-no. Da gestação mórbida, viriam pérolas. Ainda estas, para serem grandes e belas, reclamariam excitação violenta seguida do indispensável repouso.
Luiz Garcia, personagem autobiográfico dessa fase, andava “tomado de temores intermitentes e inexplicáveis. Por fora havia só a máscara imóvel, o gesto lento e as atitudes tranqüilas. Um observador atento podia adivinhar por trás daquela impossibilidade aparente ou contraída, as ruínas de um coração desenganado”. 
O gênio míope obedeceu ao próprio conceito de que “cada um trate do que lhe dá mais gosto”. Copiando as uvas da fábula, facilmente consola-se, como o desenhista tanto mais afeiçoado á sua arte quanto menos a anomalia ocular que permita as distrações sedutoras do ambiente: “O exterior muda; o essencial é a alma do homem”, é o pensamento que ilustrou com a observação do crítico: “uma das partes mais difíceis do romance e, ao mesmo tempo, das mais superiores, é a análise das paixões e dos caracteres”.




[1] Desde que terminara o ensaio sobre Dostoiévski, antecedendo o de Jean-Paul Sartre, venho desejando escrever a respeito de Machado de Assis, enfim foi o primeiro escritor de minha vida, tornando-se o meu primeiro mestre.  Por que escolhi este tema para o primeiro ensaio sobre o mestre querido? Aquando do livro de Simone de Beauvoir sobre os últimos tempos de vida de Jean-Paul, que ela descreve nua e cruamente tudo o que Sartre viveu, os intelectuais franceses, indignados com isso, dissera-lhe: “Há coisas que se vive; há, outras, que não se dizem”. Tenho razões muito íntimas para não revelar o porquê deste tema, mas, com efeito, compreendo agora a dor íntima que é isto ter problemas de vista sério. Cuidar do que mais dá gosto, diante dos problemas da vida e do corpo, é a melhor medida, é a aceitação plena e absoluta. Fosse eu nesta situação de Machado de Assis, continuaria as leituras assíduas, a leitura compulsiva.
[2] A neurastenia ocular é um estado periódico de extremo desconforto dos olhos, determinado pela fadiga contínua. Aparece em seguida ao cansaço mental, provações morais ou financeiras. A situação agrava-se nos anômalos visuais, sobretudo se essa condição não se encontrar devidamente corrigida
[3] Comecei a ter problemas de vista, miopia, aos quinze anos, aos dezesseis comecei a usar óculos. O oftamologista dissera-me com todas as letras que, se não reduzisse um pouco a leitura, na maturidade teria muitos problemas, poderia até ficar cego. Jamais dei a mínima atenção para o que ouvira com tanta franqueza. Não reduzi, ao contrário, ao longo do tempo fui aumentando, acrescentei a escrita aos vinte anos. Estou com cinqüenta e três anos, o grau dos óculos é três, vinte e cinco, em cada lente, um e meio de astigmatismo. Continuo lendo e escrevendo continuamente. 
[4] ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Machado de Assis, obra completa. Vol. II. Rio de Janeiro. Editora Nova Aguilar S.A., 2006. pág. 548.
[5] Idem, idem.
[6] Idem, idem. Pags. 549-550.
[7] No estojo do pince-nez existente na Academia Brasileira de Letras há o dístico da extinta casa de ótica Pazos, à rua do Hospício, hoje rua Bueno Aires. 

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