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terça-feira, 24 de novembro de 2015

ETERNOS CAMINHOS DO CAMPO - Manoel Ferreira Neto



Picasso dissera que é preciso muito tempo para ser jovem. A vida exige e impõe ao longo dos anos amadurecimento para enfrentar as situações difíceis, superar os problemas, tornar-se outro, viver o outro que nos habita o espírito. O ser jovem, sonhador, inocente, ingênuo, puro vai sendo esquecido, vai sendo perdido ao longo das situações e circunstâncias da vida. Perdem-se o sonho, a inocência, a ingenuidade, pureza, tornando-se homens problemáticos e conflituosos, dores e sofrimentos perpassam-lhes a vida inteira. Numa curva do tempo, a necessidade de res-gatar o que fora perdido, viver o que não foi vivido, sentir o que não foi sentido, a busca inocente do amor, amizade, compaixão, solidariedade. 
O que é isto – ser jovem? Sonhar com as real-izações, desejos e vontades concretizados? Desejar o encontro da amizade sincera e real, do amor verdadeiro? Viver a felicidade, alegria da entrega ao outro, comunhão que trans-cende as contingências, dores, sofrimentos, real-izando a espiritualidade?
Nossos poemas, título da antologia de poemas, escritos pelos jovens alunos da Escola Estadual Bolivar de Freitas, projeto Ler e Interagir, 2º Ano 1, mostra e re-vela de modo eficaz a sensibilidade, intuição da vida, o que ela nos pode pro-porcionar a partir da entrega real às buscas e desejos tantos que nos habitam. Mostram e id-(ent)-ificam as características, estilo e linguagem dos “novos” escritores, verdadeira imagem através de que se pro-jetam os caminhos do campo, caminhos de sensibilidade, intuição, percepção, caminhos de sonhos e buscas, de encontros e desencontros, de aprendizado e compreensão das letras, o que elas significam na vida, o que elas são capazes de fazer para o nosso crescimento espiritual e humano, humanitário e evangelizador. 
Certa vez, um jovem perguntara a Dostoiévski, escritor russo do século XIX, o que era preciso para ser escritor. Respondera-lhe Dostoiévski, inspirado em sua própria vida: “È preciso sofrer, sofrer, sofrer...”.  Nesta antologia, id-ent-ifica-se com espontaneidade alguns jovens que realmente a-nunciam e a-presentam dons artísticos que, ao longo do tempo, a partir da entrega às letras e à vida, pro-porcionarão trans-formações e mudanças reais nos homens. São jovens, sim... Jovens sonhadores e sensíveis, jovens que sonham com outra realidade que não esta que vivemos em nossa modernidade. Se estes jovens me fizessem a mesma pergunta que fora feita ao imortal e eterno escritor russo, não titubearia um instante sequer para lhes res-ponder: “Para ser escritor, é preciso amar os homens e a humanidade, desejar contribuir para as mudanças sensíveis e espirituais”.
Faz-se mister sim cumprimentar a Escola Estadual Bolivar de Freitas por este PROJETO “LER E INTERAGIR” que visa essencialmente a des-coberta dos novos valores artísticos em nossa comunidade curvelana. Ressalto aqui uma dimensão que perpassa toda a antologia, dimensão esta que acredito haver sido orientada pelos educadores e professores: o mergulho na própria intimidade, a busca do eu, a busca do conhecimento de nós mesmos. Sem este mergulho em busca de nossa vida, nossa realidade, impossível mesmo qualquer letra, poema, conto crônica, romance, impossíveis a beleza, o belo, a estética, ética e moral, e o mais importante ainda, impossível a literatura. Com esta orientação, os jovens poetas manifestam os mais profundos desejos e sonhos, utopias e vontades, dores e sofrimentos, alegrias e felicidades. 
Nos últimos tempos de minha carreira de crítico literário, analisando as obras de nossos escritores já conhecidos e alguns desconhecidos, venho me perguntando pelos jovens, pelas escritas dos jovens. Conheci e comentei neste tablóide Centro de Minas um poema da jovem Carolina Diniz Guimarães, filha do nosso prefeito Maurílio Guimarães, um encontro lindíssimo com a sua sensibilidade. Pensara comigo haver sido o único comentário a respeito de uma jovem. Desejava muitos mais. Seria verdade não haver mais jovens que desejam trilhar os caminhos das letras? Não podia acreditar nisso, e tudo me indicava ser preciso acreditar, os valores materiais em nossa modernidade são os mais imprescindíveis. Ninguém mais quer saber das letras, quer enveredar-se nos caminhos delas. Recebendo esta obra da aluna Sarah Amaíse Rodrigues Valgas, pedindo apenas para ler, conhecer os poemas que os alunos e amigos publicaram nesta antologia, fiquei mais do que alegre e saltitante, fui tomado de uma felicidade sem precedentes. Não apenas por me questionar a respeito das letras dos jovens, mas por me deparar com verdadeiros dons artísticos, sensibilidades e espiritualidades profundas, desejos e vontades de vida real, de sentimentos e emoções íntimas. Conhecer estes jovens, suas letras e seus sonhos, tornou-se para mim res-gate de minha própria juventude, mergulhar nos sentimentos e emoções que me perpassavam, sonhos e utopias, desejos e vontades. Aos cinqüenta e um anos de idade, lendo esta obra senti-me novamente jovem, adolescente, quase que a inocência e ingenuidade tomaram-me por inteiro, mas com certeza a pureza dos sentimentos fizera-se presente em minha vida.
Sendo jovens, desejosos de vida e realidades, os temas e temáticas a-presentados não seriam outros senão os sonhos, o amor, a amizade, o ser amigo, a vida, etc., etc. Assim, id-“ent”-ifico algumas passagens de alguns jovens-poetas pela linguagem e estilo poéticos-poiéticos, verdadeiros novos valores de nossa Literatura Curvelana – encontra-se nalguns poetas curvelanos a linguagem poética, mas linguagem/estilo poiéticos não se encontram neles.  Diria mesmo que alguns escritores nossos estão precisando aprender a escrever com estes jovens, a literatura precisa de re-novações, e são estes jovens que podem mostrar a estes alguns escritores o que é isto escrever com sensibilidade e espiritualidade.
O que é isto – ser amigo? Responde-nos Luiz Felipe Siste: “Ser amigo de verdade, é compartilhar segredos/, ter alguém com quem possa se abrir...”. O que é isto – a verdadeira amizade? Responde-nos Tâmara Mendes Lucena: “A verdadeira amizade/ faz nos enobrecer/de sentimentos, enriquecer/, pulsar o coração”.  Sobre a vida, diz-nos Felipe Moura Costa: “Devemos abrir nossos olhos às conquistas/; conquista da confiança, de um amigo,/ da sinceridade do colega, do amor à namorada”. E Talita Líbano de Souza em Desilusão fala-nos de que é feita a vida: “A vida é feita de sonhos e ilusões/,para disfarçar a tristeza/deixamos nos levar pela beleza/, de doces palavras vãs”. E sobre a Inspiração do Amor, o que nos diz Sarah Amaíse Rodrigues Valgas: “Não há vitória sem luta/não há caminho sem dor/mas o que tudo suporta/é o Amor”.
A exigüidade de espaço no tablóide impede-me de mergulhar fundo nesta antologia dos jovens poetas, mas assevero com honra e dignidade que são outros valores artísticos, são de-monstrações de sensibilidade, de amor, de solidariedade com os homens e a humanidade, são revelações íntimas da alma humana, e o mais importante é a-“núncio” da espiritualidade. Todos estes jovens são portadores de dimensões profundas da vida.
 Desejo aqui cumprimentar a todos estes jovens, com efeito são portadores de dons artísticos, todos os poemas são eivados de sensibilidade, apresentam valores os mais divinos e reais. Desejo também deixar-lhes uma mensagem: “Escrever, meus queridos novos poetas, é a aventura da sensibilidade e do amor, aventura que nos leva aos eternos caminhos do campo”. Desejo mais uma vez cumprimentar os professores e educadores da Escola Estadual Bolivar de Freitas por este Projeto, dizendo-lhes que continuem a incentivar e a reconhecer os nossos novos valores. Desejo muitas conquistas e realizações àqueles que enveredarem realmente neste caminho tão lindo e maravilhoso que são as letras.
Felicidades, meus queridos jovens poetas!... Maria Santíssima ilumine suas vidas e suas letras!...












[1] Esta crítica fora pela primeira publicada pelo tablóide Centro de Minas, do amigo José Adonias Ribeiro, aos 08 de março de 2008. Fora a penúltima antes de nada mais publicar naquelas folhas. 

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