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terça-feira, 24 de novembro de 2015

COMENTÁRIO HISTÓRICO - João Carlos de Oliveira (Seminarista – 5º período de Teologia - Seminário Arquidiocesano Sagrado Coração de Jesus – Diamantina)



Chamou-me a atenção neste trabalho – “SARTRE À LUZ DA EXPERIÊNCIA MÍSTICA” – é que o autor, Manoel Ferreira Neto, tenta fazer uma ligação do ente ao místico. Mística que está imbuída mesmo no pensamento filosófico, na qual nós fazemos uma repulsa à mítica neste tipo de pensamento, pensando nós, não haver tal situação no contexto filosófico. O autor tenta demonstrar o contrário, percebendo haver nas entrelinhas das palavras do filósofo francês Jean-Paul Sartre uma “experiência mística”. É perceptível um retorno à mística; aqui, de forma especial partindo da filosofia. 

A mística hoje  é notável, está démodé – deixada de lado mesmo. O homem não é apenas uma vivência material, mas também busca na categoria extramundana um sentido daquilo que se vive.

Passos em revista o contexto em que vivemos para acenar a ruptura que ocorreu na história, qual o homem está ligado apenas no aspecto intramundano desvencilhado de uma “experiência mística”.

A caracterização do estádio em que vivemos e do legado que trazemos do período moderno, sobretudo dos séculos XVII e XVIII, são marcados pela razão e liberdade. O que estava – e está – em voga é o experimental e racional. Coloca no indivíduo o critério da verdade, rejeitando aquilo que o transcende; todo acento recai sobre o indivíduo. A fundamentação deste pensamento moderno está em franquear ao indivíduo e/ou este se achar na plena auto-suficiência e confiando nas próprias capacidades. A tentativa de desvencilhar de um passado para dar espaço a uma nova era, com uma tendência de uma constante busca da verdade, não de uma verdade imóvel como no passado que o homem sujeitava. O propósito agora é colocar o primado do “vir-a-ser” sobre o “ser”; da “potência” sobre o “ato”.

Na autonomia do homem moderno, não é raro pensar que não há necessidade de uma salvação que vem “do auto”, pensar que é capaz de conquistar sua felicidade, descobrir a verdade e perseguir no bem, em que triunfará a razão e implantar-se-á o que for de exato.

O homem está como que colocado no mundo e a mercê de sua própria sorte, pois é refutada toda intervenção sobrenatural no mundo e qualquer forma que sirva como mediação entre o homem e Deus, e o homem é guiado eticamente pela exigência da razão e de sua vontade. Chega a ponto de afirmar que tudo acontece sem a intervenção de Deus; este que com um impulso colocou o universo em movimento depois se retirou na inatividade, a fim de que suas criaturas possam, com plena liberdade, desenvolver sua obra com melhor entendem. Tudo o que está fora do contexto intramundano é visto, muitas vezes, como obstáculo à evolução do homem e da sociedade. Daí o espírito anti-místico que prevalece neste estado de coisa que o homem criou é como que um frio cálculo da razão crítica.

Portanto, o predomínio da razão na vida individual e coletiva dos homens por sua autonomia livre de categorias místicas e toda uma sociedade – as cabeças pensantes – participa das discursões sobre os assuntos em questão. Há uma refutação dos sistemas estabelecidos que pregam uma mística e simultaneamente uma corroboração das análises críticas.

Se é relegada toda uma ortodoxia e é colocado em xeque os mistérios – a mística, onde Deus só participa da criação e está agora bem distante do quotidiano dos homens, não há lugar neste mundo para qualquer experiência mística. A idéia de divindade é mantida e defendida apenas para garantir a moralidade na vida social – e nada mais. A vida do homem que era antes cadenciada segundo a vontade de Deus, agora está no compasso da autonomia, da razão da liberdade e vontade.

É dilatada a confraria – na era hodierna – secularista e de seus membros que são verdadeiros arautos da autonomia humana, enquanto que as manifestações místicas são suplantadas e contestadas, estando sujeitas à críticas racionais. Mística esta que não impressiona mais, entrando no rol da supressão. O que fala mais alto é a secularização em “ato” na sociedade de hoje, que foi outrora potência, ou seja, uma nova apreciação das realidades terrestres junto com uma confiança quase ilimitada nas capacidades naturais do homem.

As massas ficam, em primeira instância, alheias a este tipo de pensamento, mas no decorrer de sua vida se vêem bombardeadas por este pensamento externo e acabam tomando para si, paulatinamente, tal espírito de um homem novo em vias de secularização e sua “razão” tornar-se-á em sua própria vontade – a consciência. Esta se dá como uma lei própria de justiça e verdade, à base da qual se julgam suas ações e as dos outros como sendo boas ou más, não obstante, seus princípios pessoais. Aos poucos a refutação à mística vai tomando campo na mente das massas.

Com este ofuscamento da mística chegou a tal estágio que se apresenta como um tempo de “crise”, onde muitos homens e mulheres estão desorientados, incertos, acompanhados por uma espécie de agnosticismo prático e um indiferentismo daquilo que não é material, fazendo com que muitos dêem a impressão de viverem sem um substrato místico.

Deve ser levado também em conta que hoje, certamente, não falte uma “presença mística”, mas com a afirmação lenta e progressiva do secularismo, correndo o risco de reduzir-se a meros vestígios de materialismo, dando-se a impressão de que o normal é não crer.

Destarte, o que ocorre com isso, o vazio interior que oprime muitas pessoas, e a perda do significado da vida, porque de uma forma ou de outra, tudo na vida deve ter uma projeção para o não físico.

Entre outros sintomas deste estado de “crise mística”, a situação atual registra o fenômeno das crises familiares e do esmorecimento do próprio conceito de família, a persistência dos conflitos éticos, o reaparecimento de alguns comportamentos racistas, o egocentrismo que fecha indivíduos e grupos em si mesmo, o crescimento de uma indiferença ética geral cultuando uma ética individual e de uma preocupação obsessiva pelos próprios interesses e privilégios.

Na raiz da “crise mística”, está a tentativa de fazer prevalecer uma antropologia sem Deus. Esta forma de pensar levou a considerar o homem como “o centro absoluto de toda a realidade”. A cultura atual dá a impressão de uma apostasia silenciosa por parte do homem que vive como se Deus não existisse.

No campo eclesiástico, a pregação do cristianismo não deve ser apenas social, mas buscar e pregar a mística neste contexto de crise. Ele não é apenas uma realidade social, mas, também mística. Para tal, aparecem grupos que são verdadeiros protagonistas para o problema social, ao passo que o místico fica em segundo plano. Sua pregação tem como princípio o social e a partir deste, quem sabe, possa ter um lugar para a mística.

A questão é que: “o homem não pode viver sem um princípio místico”, ao contrário, a sua vida perderia o sentido, tornando-se insuportável. O homem pensa que é possível satisfazer as exigências de sua vida com realidades efêmeras e frágeis, assim sua vida fica confinada a um âmbito intramundano, fechado à transcendência, caracterizado pelo paraíso prometido pela ciência e a técnica. A técnica oferece uma felicidade de natureza hedonista através do consumismo, com prazer imaginário e artificial. Mas tudo isso se revela como ilusório e incapaz de satisfazer aquela sede de felicidade que o coração do homem continua a sentir em si mesmo.

O propósito de Manoel Ferreira Neto nesta obra é fazer uma volta à mística, mas uma mística verdadeira, não alienatória, não uma mística que seja usada como um narcótico para os problemas quotidiano. A verdadeira volta à mística dar-se-ia com uma ligação ao transcendente não como projeção.   
              

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