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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

CLARINETAS DA RIBALTA



Calo-me. Silencio-me. Emudeço-me.
No emudecer do silêncio,
Calo-me.
No calar do emudecer,
Silencio-me.
No silêncio do calar-me,
Emudeço-me
Levo um grito sufocado encravado num sentir emudecido. Impossível “re”-tê-lo, “re”-presá-lo por mais tempo: domá-lo. Estilhaço-me. A palavra, se em represa, é um murmúrio de arribas, sussurro de confins; se correnteza, brado, estampido.
Ando para a luz levando o fardo de desejos, esperanças de ver-me “ser” nas linhas do espírito e eterno, esforço-me para não ruir, seco e falido. Fracas possibilidades de letras reais nos sentimentos verdadeiros, de vozes imaginárias nas emoções re-criadas, in-ventadas, esboçam-se e des-aparecem – quase verto lágrimas pujantes! -, roendo entranhas, re-vezando mordaça, e a escuridão em que tateio o trajeto arrasta correntes, mas sigo na busca des-esperada de me ver sendo. Cada dia debulho uma letra de minha fala, perco-a nos sonhos, e dou um passo para a distância. Breve me perderei no horizonte.

Emudeço-me no silêncio de calar-me.
Silencio-me no calar do emudecer.
Calo-me no emudecer do silêncio.

Uma sílaba do que digo se des-garra, rolando pelo chão que não é de giz, mas de grafites em pó, gota de sangue de-(r)-ramado que não voltará à veia. Imagino-me numa estelar distância no branco da lua longínqua, nos raios fortes do sol. Ensaio o som uni-versal de um sorriso.
Sou voz de olhares, ímpeto de pensamentos de ser, liberdade, de espírito.  Sou desejos de encontro, de sonhos e utopias do eterno do espírito das linhas. Sou esperança de amor, entrega, do verbo no espírito das linhas eternas.  Sou espera, movimento, gota de chuva, lufada de vento, lua boiando na noite, risco de estrela cadente. Sou a mão que delineia e burila letras, sílabas, sons, que desenha os símbolos com esmero. Sou tear na madrugada fabricando desejos plenos de espírito, de linhas eternas. Sou eterno prisioneiro das linhas brancas que desejo preencher com letras de esperanças, dores e sofrimentos, de verbos de fé, felicidade. Sou a idéia de uma águia pairando sobre um abismo. E quando sou a idéia, sou a águia. Sou pernas varando o tempo. Sol no rosto e um fardo colorido, a hora que chega e se perde, mas re-torna com nova força. Sou o barro de minha terra na sola de meus sapatos, poeira no peito deles. Sou nos recantos e auroras o composto de marcas sombrias.

Emudeço-me. Calo-me. Silencio-me.
No calar do silêncio, emudeço-me.
No emudecer de calar o silêncio, silencio-me.
Silencio-me. Emudeço-me. Calo-me.

Ando em busca da estrela que brilha na madrugada, do sol que raia na manhã de nuvens brancas e azuis. Caminho pisando campos, trilhando veredas e planto em cada canto que passo a verde esperança da flor de cactos. Nos múltiplos úteros do chão, apanho o cristal que germina. As mãos unidas em concha colhem água em qualquer fonte e afagam o broto que nasce nesta fixa floração.
Escuto o cantar do galo, o cão ganindo no escuro, pio de pássaro nas moitas. Descubro no boi berrando, no relincho dos cavalos, no zurro dos jegues, no coaxar dos sapos, num lobo uivando na serra, um som recente, neste tempo que varia como vento mudando o rumo quando a chuva se a-nuncia. Vou aprender no campo o ofício das mãos que lavram as letras e verbos e vão perpetuando os desejos do sublime, a vontade do eterno, a esperança do imortal.
Vou à procura da estrela que brilha na madrugada. O poeta borda a palavra, verso a verso, alinhavando as estrofes de sonhos, utopias, quimeras e fantasias, os ritmos de sentimentos de esperança, amor, fé, a musicalidade dos desejos e da liberdade de ser, do ser-com-o-outro, do ser-para-o-outro, do si-mesmo. O escritor tece com o amor do tecelão os fios no tear dos sonhos e das utopias, numa inventiva criação de idéias e pensamentos. Trabalho eu, poeta/escritor, o sonho imortal que me faz transeunte sem peias da livre caligrafia. O poeta pesca a palavra da própria entranha como se o corpo fosse o açude, e o peixe, o verso. O escritor expele a palavra a todo sentimento e idéia de uni-versos de liberdade, a toda emoção e pensamentos de horizontes de encontro com a Vida e Amor. A palavra e o poeta germinam da mesma cova, e, juntos, vão no mesmo passo, às vezes em veredas diferentes, às vezes em caminhos mesmos, porque um no outro se completa, multiplica-se, esvazia-se.

Calo-me. Emudeço-me. Silencio-me.
Silencio-me no emudecimento do verbo calar.
Calo-me no silenciar do verbo/carne do emudecer.
Emudeço-me no verbo do silêncio.

Caminho nos pensamentos, esbarrando-me remotos dias. Reagrupo-me às sombras; retrilho uma cena qualquer, viajo nos detalhes dos trajes, cores, conversas, a eternidade das mãos troteando o corpo... Desvairado, rendo-me à ficção da noite, perdida no irreversível. Enlouquecido, remedio-me das mentiras da escuridão à luz dos postes. Disperso, rendo-me à realidade da aurora nas entranhas de uni-versos a serem construídos.
Veredas... Fogo de bala, travessia, curiangos, aves pretas, flor de pau, cascalho solto, faísca de ferradura. A noite é só tocaia, um descuido é perdição, cachorro late-mordendo, cobra dá bote e esconde, burro coiceia e refuga: “Viver é muito perigoso”. Grito, perdido na morte, doce riso, amargo fim,  viver é pré-liminar à cova. Passo curto, passo certo: Travessia.
O que me pergunto é: quem em mim é que está fora do eterno prisioneiro das linhas? quem em mim é que está fora até de pensar?
A ressonância da pá-lavra per-corre soberana, con-tornando muros e montanhas, escoando em ondas. Risco, arranho, demulo, penetrando alvos. 
No miolo da note, outra noite acontece, e o que era transluzente, aos poucos escurece como ondas nebulosas, sufocando, envenenando, roubando o nascer do dia, o re-nascer de outras palavras, horizontes e uni-versos. Meu posso é ponto, meu corpo, fonte. Em que estrela aportará meu sonho.
Viajo no tempo que voa nas asas da imaginação. No momento presente, sei o que foi, o que era, o que vai ser, o que será. Só não descubro o artifício que me contorce nesse ponto/uni-verso onde me encontro passageiro das quimeras, sonhos, fantasias, utopias. O próprio ser que me con-figura sangra ferido: “viro longe no mundo, piso nos espaços, faço todas as estradas”. Num passo de magia a terra vira, torna-se vida nas mãos de lira das linhas e espírito eternos.
Restaram-me equívocas pétalas das palavras, diariamente nascentes, para o nada obliterante do não-visível. O tempo se faz devagar, tateando símbolos. Roucos ruídos, sugerindo amor às linhas eternas do espírito e das páginas de sonhos e quimeras, penetram meu silêncio. E a flor de meus sonhos de ser segue transcolorindo a tela vácua do horizonte, sem saber que ingratos olhos distorcidos na distância são labaredas extintas, avesso riso, in-verso amor nas versificadas sedes de encontro e vida, metrificadas fomes de liberdade e ressurreição, ritmadas ilusões de con-templar o ser à luz do verbo, in-versa distância nos des-lustres de ausência: (in)afeição que crio e nela própria des-orvalho o re-verso lado da luz.
Cal0-me.
                Emudeço-me.
                                         Silencio-me.
Emudeço-me no verbo/calar.
Calo-me o verbo/emudecer.
Silencio-me no verbo/calar.
                                                  Calar o verbo.
                                                                           Emudecer o verbo silenciar.
                                                   Silenciar o verbo calar.
                                                  
                                                    Calar/verbo, Silenciar/verbo, Emudecer/verbo
                                                     Na carne eterna das linhas e espírito.    

Algo esquecido, e quase mesmo dissolvido na terra, re-aparece à voz de onde a curva (re)-constitui ventos. Simulação, ironia, tudo emudece, a alma ajusta as reminiscências. Sarcasmo, cinismo, tudo silencia, os olhos contemplam as relíquias do tempo nalguma pousada de garimpos.
Nos prados, a vida brada o absoluto de sangue fresco, o frio é frio.
Seria um equívoco acreditar que apenas aqui se sente o gosto do vento frio tocar de leve o corpo, penetrar-lhe, tão característico das regiões serranas. Trata-se de vencer a indiferença e a apatia profundas que se percebem nalguns indivíduos desta terra, desde o instante em que se faça mister acolher o frio e as paisagens, o vento e o cenário. Estes indivíduos só são capazes de algo se forçados a fazê-lo. 
A fênix pôde renascer das cinzas, pôde escolher entre a morte e a vida. Escolhera a vida. Glória tão simples, renascer das cinzas, parece-me estranha. Outros dirão que o que me falta é humildade, se se preferir, a simplicidade. Porém, essa palavra, em suma, é ambígua. Semelhantes àqueles bufões de Dostoiévski que se orgulham, se vangloriam de tudo, sobem aos proscênios e terminam expondo a vergonha, a culpa todas, faltam-me apenas a nobreza e virtude do homem que é a infidelidade a seus limites, o lúcido amor de sua condição, o transparente sonho de sua natureza.
Se devemos resignar a viver o frio e as paisagens, o vento e o cenário, a vida, enfim, e as felicidades que eles implicam, o mito de Prometeu está entre os que nos farão lembrar que toda mutilação do homem não pode ser senão efêmera e que ninguém mostra nada do homem se não o apresenta por inteiro, o cenário e o vento, as paisagens e o frio, as arquiteturas e a solidão. O herói acorrentado, mesmo sob o raio e o trovão divinos, mantém inabalável sua fé no homem. Assim, ele é mais duro que sua rocha, mais paciente que seu abutre. 
Por isto morrer custa. Abrem-se as gotículas, com a calma da boa consciência. Abre-se a esperança dos que iniciam, a vida renova-se, crianças nascem, abrem os olhos, completam-se, visão aguça, enquanto outras crianças vão nascendo e levam os nossos desejos que vão envelhecendo e assistem à vida renovar-se. Abrem-se os sonhos de quem deseja amar incondicionalmente, de quem deseja entregar-se à vida sem reservas, de quem deseja contemplar o que é isto ser feliz. Morrer custa.
O questionamento é o que estaria, em verdade, acontecendo. Não acredito que algo neste nível surgisse de imediato, tomasse o lugar imaginado e pensado ser conveniente, passasse a interferir em todas as outras dimensões, modificando as emoções, transformando os sentimentos, aguçando a sensibilidade, sensibilizando o corpo. Sinto o inverno que toca a pele, o corpo por inteiro, sinto-o perpassar a carne, ainda não o sinto nos ossos. Será que, além dos ossos nunca emagrecerem, jamais sentem frio? Quem dera venha a senti-lo nalgum tempo distante, nalguma janela aberta da pousada Relíquia do Tempo, é a esperança que trago nas cinzas de quando nada sentia. Sinto mãos que me tocam, acariciam-me, e vibro nas entranhas, nos interstícios das saudades e das ausências, feliz estou por conhecer a verdade que nasce nas mãos, e só nelas é possível saber a sinceridade, a seriedade. Quem sabe esteja reduzindo, em dizendo que a verdade nasce nas mãos, mas não foram as mãos de Jesus, através de sua fé inabalável em Abba-Paizinho, que multiplicaram os pães? Sinto-as no corpo inteiro, e não é a esperança de vir a senti-las nas entranhas, é justamente nelas que acredito e creio.
  A morte nunca me incomodara um mínimo sequer. Sabia a morte ser uma realidade para todos. Costumava dizer: “Até Jesus Cristo morreu. Por que não eu, um simples mortal?!” Aceitava-a? Não diria que aceitasse, pois em muitos momentos imaginava o corpo sendo decomposto de por baixo de sete palmos. Tão somente isto. Quem sabe não percebesse que a morte transcendia e muito isto da decomposição do corpo?!...
Estive ontem no cemitério junto com a esposa – por ser Dia das Mães, fora rezar em sua sepultura, mostrar-lhe o seu amor por ela, o quanto a sua ausência dói em seu peito, o quanto lhe é agradecida pela vida que lhe dera, os seus esforços e lutas por a educar. Antes de chegarmos à sepultura, disse-lhe não gostar de estar num cemitério. Não pensava de modo algum nos corpos decompostos, nas cinzas que se tornaram, os que se decompõem. De imediato, disse-lhe que, se me fosse possível, iria à próxima Gouveia visitar a sepultura de minha mãe. Havia até uma sepultura recente, de um mês e uma semana. Um bouquet de  rosas, um pequeno ornamento, uma espécie de livro, uma Bíblia, mas não me lembra o que estava escrito. Algo como quem crê em mim não morrerá.   
Não. Não é isto que perpassa a alma, o espírito. Por que ser inautêntico comigo? Não há motivos e razões para esta atitude. A origem verdadeira da Ética está em ser humano comigo mesmo, necessito ser ético com a minha condição de ser humano, só assim posso sê-lo com os homens, com a humanidade. Aprendi uma lição maravilhosa com o amigo J. B. R: “Se você não  ama a si, ama o que faz por si, nunca amará os homens, fará as coisas por eles”. Lição que trarei guardada bem no íntimo de mim, e sempre que puder me referirei a ela. 
Às vezes, sonha-se ouvir palavras que se sente no espírito, mas não se articulam, não se revelam, assim fico a pensar que as ouvirei nitidamente, não algo dito por mim, pensado por mim, imaginado por mim, mas dito por alguém, há esta pessoa, há este indivíduo, há este ser humano, e só ele é que poderá dizer tais palavras que as mãos não elaboram nos toques. Não fora a primeira intuição, sensação que tivera neste sentido. Na juventude, sentia que alguém tinha algo a dizer sobre a busca do amor. Aquando menos esperava, aconteceu de ler uma obra, escrita por um jovem de apenas dezessete anos, P. C. C. L., o seu original: “Sonho do Verbo Amar”. A partir de então, tudo modificara em minha vida. compreendi por inteiro o que é isto de buscar realizar o Verbo Amar.
Quisera ouvir as palavras ditas por J. B. R. Só ele estava destinado a dize-las. E nem sabia quem as diria. Ouvia-as vibrantes e fortes, semelhante à sombra da fumaça que se reflete num espaço da luz do sol, de imediato se esvanece, mas não se é possível vê-la desaparecendo, pois que, a todo momento, é exalada do carvão que se vai queimando eternamente.
Não havia ainda percebido que as palavras desejadas serem ouvidas por alguém foram pronunciadas por pessoas em quem reconheci fidelidade e lealdade com os seus sentimentos mais profundos, suas utopias mais verdadeiras, em quem reconheci espiritualidade e sonhos de felicidade, e esta só mesmo é possível se livremente entregue às lutas dos homens. Com suas adversidades, devido às experiências e vivência de ambos os amigos, as palavras pronunciadas são uma continuidade de sentido e significado, as primeiras foram pronunciadas, aquando tinha apenas vinte e sete anos, as últimas, aos quarenta e seis.   
Jamais me esqueceria delas, como “houveram” sido expressas, noutras palavras, de “cor e salteado”, sabendo o instante em que foram ditas, o sorriso dócil e terno, revelando a peculiar timidez de J. B. R,  o rosto brilhando devido à luz do sol que incidia à porta de sua empresa. Pensara comigo próprio: “São palavras as mais verdadeiras”, por haverem sido ditas do mais profundo, por ser quem as sente muito íntimo, e quem tudo é capaz para torna-la a sua verdade, a verdade de sua vida inteira, colhida nos jardins, ruas, terrenos baldios, alamedas, becos, por onde passara, e percebera bem nalma o de que os homens necessitam para viver suas vidas, morrer suas mortes, apenas a amizade verdadeira. 
Percebi que viver é muito bom, contemplar as maravilhas do universo, estar ao lado de pessoas a quem amo, distante das que odeio e por quem tenho insofismável ojeriza, sabendo apenas que existimos neste mundo – é estúpido dizer que alguém não existe no mundo por não gostar dela, por a odiar, pode não existir para mim, mesmo assim, se por mim passar, se ouvir a sua voz, se alguém proferir seu nome, surpreendo-me com sua existência desde sempre - desejar as realizações de muitos sonhos que habitam o íntimo. E como me veio esta percepção? A resposta está nítida e transparente. Assemelha-se estar diante de um rio de águas límpidas, tal a clareza desta percepção em mim.
Veio-me a percepção do valor da vida com o amor. Afirmo com convicção que amo uma mulher. Este amor que hoje me habita por inteiro deu-me a vida, mostrou-me o seu sentido, indicou-me a necessidade de contemplar a felicidade, desejá-la em sua plenitude. E fora ela quem me convidou a ser feliz ao seu lado, com as seguintes palavras: “Você ainda pode ser muito feliz”.
Se posso dizer que a morte me angustiava, é que para mim viver sempre significou realizar os sonhos, os desejos, e por qualquer lado que olhasse não via uma única realização, uma única vontade vivida, experienciada. Angustiava-me a vida por nada, sem sentido. Era assim que me sentia, que estava trilhando o caminho do campo, um campo sem qualquer plantação, inóspito, desértico. Assim vivera por muitos anos. Viver por nada!... O que isto – a vida? Com efeito, não há palavras que possam definir e conceituar tais sentimentos, dores atrozes, amarguras, rancores, angústias... Quiseram-me acreditar piamente nenhum valor há em mim, acreditei nisto, nalguma coisa teria de acreditar. Justificava-me com uma inautenticidade sem limites.
Mas, felizmente, Maria Santíssima fora (é) generosa comigo, mesmo que ainda não reconhecesse a esperança em mim, ensinou-me Ela a esperar quando visse um único sonho realizado. Eram três os maiores sonhos, embora um único já vivesse fortemente: ter um amigo eterno, P. C. C. L., o amigo de todas as horas – fácil encontrar um amigo eterno, suficiente ser fiel e leal, respeitar e considerar, - consegui vários numa única família, publicar minhas obras, ser eterno através das letras, amar uma mulher. Hoje, tenho amigos de vinte anos de vida juntos, embora alguns residam em São Paulo, outros no Rio de Janeiro, vida de muitas experiências, de muitas harmonias. E em Diamantina encontrei um amigo verdadeiramente sincero, a quem devo sim todos os incentivos com a minha arte, reconheceu os meus valores, investiu, e a ele retribuo com a mesma sinceridade, tendo-lhe dito certa vez: “Amigo, levo você junto comigo pela eternidade”.  Agradeço à vida que nossas relações tenham-se harmonizado tanto. Não sou eterno ainda com as letras, mas publico as obras, reconheço a missão na vida são as letras. Ficar apenas entre serras é muito pouco para mim. Desejo abarcar o mundo inteiro. Ser lembrado pelos séculos e milênios, como o são os homens de letras universais. Amo uma mulher.
Não haveria um único espaço para falar dos filhos, do amor que alimento por eles a cada instante da vida? Por que haveria, se sou pai diante de Maria Santíssima, de Deus, não diante dos homens? Jamais compreenderiam o distanciamento deles, não sabendo quando os encontro outra vez, se houver encontro, serão eles a procurar-me, não o farei. Não compreenderiam isto. Haveria sempre um questionamento por mais me explicasse. Sei que os amo, sei que os considero. A opinião dos homens não me diz qualquer respeito neste sentido.
  Os caminhos do campo estão sendo trilhados. Antes, surpreendia-me sempre estar cantando a música Blowing in the Wind, de Bob Dylan: “How many roads must a man walk down/Before you can call him a man?”, significando “Quantas estradas deve um homem trilhar/Antes que você possa chamar-lhe um homem?” E, agora, que me sinto muito feliz por meus três desejos estarem sendo realizados, não gostaria de morrer, gostaria sim de ir trilhando os caminhos do campo sem limites, sem fronteiras, realizando coisas e mais coisas, vendo os homens se realizarem com as minhas palavras. Um dos textos mais lindos, senão o único, que lera fora Caminhos do Campo, de Martin Heidegger, que muito me influenciara – infelizmente, não posso citar um único excerto dele, pois presenteara ao amigo de todas as horas, aliás, quem batizara um de meus filhos, o primogênito. A minha mulher ao meu lado, velhinhos, caindo aos pedaços, mas confiantes de nossas vidas estarem realizando mais e mais, pelos séculos, milênios. Talvez nem me lembrasse de que a vida eterna em termos contingentes chegaria a um tempo que iria aborrecer, irritar, as mesmas coisas e os mesmos problemas que vivemos outrora, com umas poucas e sutis transformações e mudanças.   
Às vezes, olho-a e fico pensando, o coração apertado, se ela morresse antes de mim. Não conseguiria viver sem ela. Ela quem ama tanto deitar-se no meu peito, dormir. Uma menina, ela. Quem a olha pensa ser alguém forte, decidida. Mas muito frágil, carente – tenho necessidade de acalentá-la, dar-lhe carinho, ternura, afeição. Mostrar-lhe que não têm sentido mais a carência, a fragilidade, estou de seu lado. Se se demora no trabalho, à tarde, princípio da noite, preciso ligar para saber se vai custar voltar para casa. Nada tem sentido se não está em casa logo ao começar a noite. Quase não saímos à noite, e eu não saio sem ela. O que fazer pelas ruas da cidade? Rolar sem rumo e destino. Tomar aperitivos nos bares. Conversar com as mulheres. Nada é reconfortante como a presença e o aconchego de quem se ama. Se ela morresse antes de mim, a vida perderia todo este sentido que hoje vislumbro e contemplo, desejo com todo ardor. Creio até que não escreveria mais uma única letra, pois, além de haver sido ela quem me mostrou serem as letras a missão a que estava destinado, necessito sobremodo de sua opinião, de seu ponto de vista.
No Dia dos Trabalhadores, fomos ambos convidados para um churrasco em comemoração ao aniversário do amigo J. B. R., sítio de sua propriedade. Estive sentado por alguns momentos à mesa da área exterior da casa. Olhava as serras. Não havia antes visto de frente o Pico do Itambé, embora a uma distância considerável. A sensação, a princípio, de onde estava, é que não é tão difícil escalar, chegando ao topo, mas em verdade são mais de cem quilômetros, de acordo com informação do amigo. A vontade era de seguir a trilha, mesmo que distante, satisfazer o que me perpassa o espírito. A sensação de liberdade, esta que consiste em olhar em todas as direções, sentir que os horizontes todos se abrem, e os olhos podem abarcar a profundeza da vida e de seus desejos mais amplos, distantes.
Estive por algum pouco tempo acotovelado à amurada do alpendre, observando a amplitude das serras, um cenário e paisagem a perderem de vista.
Avisto alguém se aproximando a cavalo, surgindo-me quase uma lembrança incontrolável de cavalgar, como o fazia na infância, por volta dos oito, nove anos, aquando passava as férias escolares em fazendas, roças, sítios.  
Mais tarde, após uma dança com a minha mulher, alguém lhe perguntou se lia os textos escritos para ela, se eu necessitava de suas opiniões. Respondeu que sim. Os que estavam ao nosso redor olharam-se de soslaio, talvez para expressarem que reconheciam o meu amor por ela, o agradecimento por me ter tornado um homem feliz, quem conserva no peito a esperança de ser eterno, de a morte ser apenas algo físico, corpóreo.   
Algumas vezes disse-lhe que rogo a Deus sempre para morrer primeiro, não suportaria viver sem ela. Disse que estava sendo muito egoísta, pensando só em mim. Não era ser egoísta, uma realidade de todos os homens. Quanto a mim, relacionava-me e muito bem com a morte; ela é que não, tinha problemas. O que faria sem mim? Deveria pensar que viveremos por longos anos juntos, nosso amor é imortal. Silenciei-me. Se morre primeiro, sofrerei. Se morro primeiro, sofrerá. Impasse. O melhor é deixar esta questão em mãos de Maria Santíssima, Ela sabe o que faz em nome de seus filhos.   
Há felicidade, satisfação, meiguice. Em tudo respiro de estarem na velhice ou na mocidade as virtudes. Quem ama, quem sente profundamente esta suprema dimensão do espírito, não necessita pensar ou preocupar-se com as virtudes – na mocidade, são uma contemplação de completude, na velhice, sonhos delas. Penso ser hostil caracteres exprimirem os arranjos de estilo. Não me importa um poucochinho sequer se o estilo aqui se encontra deturpado, aparvalhado; o que importa é que escrevo o íntimo, o mais profundo do espírito e da alma.
Continuo a olhar a manhã fixamente. À noite, fizera um frio de quase trincar os ossos. Atrai-me. Convida-me a penetrar-me, adentrar-me, introduzir-me, intronizar-me nela, sem vontades nem pensamentos. Se os sentimentos não são poucos, não são estéreis, ao contrário. Gozar todas as paixões, paisagens, fora do autoritarismo dos homens. Onde vamos esquecer a cúpula do edifício do pensamento e dos sentimentos da humanidade? Livre.
Instante-limite. Impulso absurdo. De que raízes não sei. Faz-me lançar o sonho, o desejo donde a língua esguicha em repuxo. Os ouvidos gritaram todos da minha lucidez.
Todos os que desejam a liberdade, aspiram à felicidade, suspiram pela paz, lutam, em última análise pelo sentimento de humanidade, a origem dos relacionamentos harmoniosos, sincrônicos, lutam pela ética. Bem entendido, não se trata de defender a ética por si mesma. Ela não pode prescindir do indivíduo, da pessoa, do cidadão; e não conseguiremos dar ao nosso tempo esplendor e calma, grandeza e serenidade, a menos que os acompanhemos em sua busca do Verbo Amar, a partir de suas dores, angústias, sofrimentos.  
Escrevendo estas linhas, com que melancolia, com que pena da galhofa e do espasmo, nostalgia, angústia, me não recordo, me não lembro dos sonhos, aglutinados de sonos, de toda a existência perdida, confusa!... As cinzas da chama anterior, sopradas de fumaça, levam o fogo reduzido a orgulhos.
Ainda ontem, enquanto tomávamos o nosso banho noturno, antes de dormimos, disse-lhe, e, com certeza, os olhos arderam um pouco, lágrimas ameaçavam a deslizar no rosto: “Quem dera se nos houvéssemos conhecido há uns quinze, vinte anos, haveria muito a ser realizado”. Respondeu-me que vamos realizar o mesmo que se houvéssemos conhecido neste tempo. Não me preocupasse, vamos viver juntos pela eternidade. Os céus nos esperam para saudarem nosso amor. Silenciei-me, olhando para a imagem refletida no espelho.  
Vivemos em nós; a dimensão da infinitude, absoluto que nos habita, este poder incrível de nos sentir a alma, de sermos homem e mulher em busca do Verbo Amar, respeito recíproco dos que concordam com a vontade – o desafio que nos lança a contingência e a morte. A experiência de nós próprios, do inverossímil milagre do que somos, é extraordinariamente uma procura. Habita-nos uma irredutível necessidade que nos vem deste desejo de nos sentir capazes de amar, um absoluto de presença que recusa o desrespeito, a agressividade.
Eu, um todo indivisível, irredutível, um ser instalado numa inefável eternidade necessária, um ser com um quê único, aquele que sou para mim próprio, aquele que sou para minha mulher, aquele que sou para os amigos e íntimos, aquele que sou para os homens, para a humanidade como eles são para mim, na pessoa tão única, tão nítida, tão fascinante que me causa, às vezes, susto e espanto.
Impulsionado pelo desejo de afetividade, amor. Faculdade de exprimir emoções por meio de gotículas com a calma da boa consciência. Este talento é excelente! Convém mais aos quarenta anos desafogar a alma das coisas confusas e sem nome que nela tumultuam, do que poder, através das arquiteturas do riso, reclamar com perfeição a gramática e pronúncia vitais, vernáculo de ovos. Convém aos cinqüenta anos insurgir contra os estados particulares, oriundos, talvez, mais das qualidades de caráter do que de falhas de temperamento, e encontrar necessidades que venham responder aos desejos do Verbo Amar, vernáculo de sonhos.
Bem não sei responder, se isto de hoje a morte estar a incomodar-me, ouvira alguém dizer, se não fora apenas um, mas vários, que mo dissera, que ouvira nalgum colóquio. Ouvira (?)(!) dizer que o incômodo com a morte começa na segunda metade dos quarenta anos, é tempo do inventário da vida, da investigação das virtudes, valores, defeitos, para que os anos 50 sejam mais calmos e tranqüilos, também o início da real aprendizagem da morte. Não o sei dizer. Também não importa a isso responder. Importa que começo a sentir este incômodo, e, ao longo dos anos, intensificar-se-á, até que tome consciência de sua necessidade.    
O que me lembro não tem face nem nome, é a estética de um limiar indistinto, para anunciação da presença, alarme de uma aparição. Num longe imaginado, passam os ventos em seqüência, o frio desliza sobre a terra abandonada, uma voz de espaço ressoa a atenção minha lançada.
Compreendo que esse esplendor, resplendor, êxtase demasiado longos, infinitos nada oferecem à alma, sendo apenas um gozo sem limites, sem fronteiras, sem reservas. Desejo então retornar às coisas do espírito, fascinam-me, completam-me, e o desejo é de expressa-las em sua pureza. Os homens desta terra têm coração e espírito, nisso residindo a força, a decisão de serem livres, só alguns, não são poucos, contudo,  vivem esta esperança que lhes habita o íntimo, os outros não a quiseram alcançar, seguem trilhas diferentes. Podem tornar-se amigos (e amigos excelentes!), mas jamais serão confidentes de ninguém. Talvez seja uma peculiaridade, singularidade, originalidade, que alguns julguem pernósticas e perigosas, cidade onde se faz enorme consumo da alma e do espírito e onde a água das confidências jorra furtivamente, ilimitadamente, por entre as fontes, serras, estátuas, jardins.   
O que me vem à boca e tem nome refugia-se na timidez do silêncio, porque a voz que me fala transcende o passado, presente, futuro, vibra desde as minhas raízes até ao termo, e terno, aí onde o amor é mais que pura expectativa, pura interrogação.
Os olhos têm outro brilho. Pequenos, mas de perspicácia enorme. Agudos e poderosos, rompem através do tempo e surpreendem o contorno da realidade. Se antes mostravam ânsia de entender e compreender o  mundo, trazendo para o interior deles todas as manifestações, agora mostram a vontade de penetrarem as dimensões todas do espírito. O corpo pulsa. Verbo de um ato que corta a natureza feita pelo sonho.
Retomo o caminho sinuoso, busco o verbo erguido de um só instante. A qualidade não repousa em coisas. Não há como o amor para fazer verdade o que é sonho, e real o que existe de fantasia. Sonho que se vai lembrar. Sorriso aberto. Luminoso, atrás de movimentos seguros. Tento com ousadia e coragem rodear de presença o gesto, a atitude.
A energia vital que está nas entranhas. Não consigo entender o que é da imaginação. A idéia da expressão lícita e nítida. Se o que sonho acordasse!... Entendo a perplexidade diante do poder que me nasceu nas mãos. Aprendi que é mais intenso criar uma flor. O tempo e o amar.
Imperfeito em autêntica assunção, revelo até onde sermos e não sermos. Estranhas palavras trepidam em difamar o juízo suspenso. Amontoadas com o sacrifício de todos os instantes, requestá-las com uma dessas gargalhadas escandalosas, verifico nelas a expressão misteriosa e maroteira do que sou, ou, mais rigorosamente, do que é a Vida em nós. Rever n´Ela a manifestação do que somos para lá do que em aparência no-La possamos dar. Escrita com pouca ortografia, salda no seu silêncio, no escárnio derradeiro à bota que a esmaga, atiro-me ao catre com uma explosão de soluços. O gesto da criação molda o ar de vazio.
Gume de navalha para separar de mim tudo o que é lixo e corrupção, para que ao máximo de minha degradação se oponha o máximo de minha recusa, da separação radical e sutil, da fecundidade macia, da eliminação dramática.
A ninguém revelo o opúsculo da sensibilidade. O que sinto neste tempo, posto que enfatizo e friso o amor, tem ainda um pouco de sonho a ser realizado. Que imaginação fértil tenho eu, portanto, para esse equilíbrio superior em que a morte contrabalança a vida, o ódio contrabalança o amor, o desejo, a inspiração, e que leva a música conflitos até mesmo para a tragédia de cinzas?
Volto às costas para a janela do quarto, embora fique encostado à parede, as mãos nos bolsos da calça de cor cinza, decidira vestir-me todo de cinza, hoje, até mesmo o paletó. As miseráveis tragédias arrastam consigo um odor de mesa de bares onde reúnem companheiros e a conversa que delas saí tem cor de gordura caída no forro. 
Graças à arte de assediar as vontades, desejos, até mesmo as chufas alheias, alcanço uma resposta condicional. É já alguma coisa.
Sou um homem em demasia orgulhoso, tão orgulhoso que jamais aceitei qualquer desaforo, e se presenciei algum feito a mim com todas as pompas e escárnios, não os levei para casa, repliquei de imediato e, com toda a presença de espírito, e sem ela também, pedi licença ao agressor, pondo-me de volta ao lar. Mas nunca me expressei assim diante das ofensas: “As letras entraram em minha vida desde a mais tenra infância”, o que é em demasia vulgar e chinfrim por significar simplesmente uma defesa, um encobrir dos verdadeiros sentimentos de dor e angústia. 
Sou tão orgulhoso que chego a fazer de sentimentos de inferioridade um templo dedicado às musas da eternidade, mesmo que elas não aceitem a minha grande generosidade, dizendo que este templo é amaldiçoado, são elas a fonte de inspiração de poetas e artífices da luz, e não de agressividade à condição humana.
Em dizendo neste estilo, quem me ouve ou quem lê este escrito, chega a pensar que não é possível que haja alguém neste nível, desejando até jamais se aproximar de mim, e lhe digo com deferência que não me importa a mim se não deseja a aproximação, o melhor é mesmo não se aproximar, pois me sentirei fadigado em lhe explicar que em verdade o orgulho em mim não deriva de inveja estéril ou de ambição impotente, de uma revolta por não ser capaz de algo desenvolver até ao fim, de ser um ignaro escritor; acho-me entrincheirado na idéia de limite. Tão entrincheirado que não nego o sagrado, não nego a razão. Nada nego, enfim. 
 É uma força que descobri em mim – aliás, se não a encontrasse nalgum tempo de minha vida, posso garantir que agora estaria de todo amassado em meu canto, reduzido a nada, pois que foram muitas as intempéries, foram muitos os dissabores e fracassos, e, como não poderia deixar de faltar, foram muitas as agressões que recebi diretamente na cara. Diretamente na cara é até um eufemismo, pois que é tabefe que se aplica na cara de alguém, e não palavras; as palavras foram ditas diretamente ao espírito com o desejo mesmo de achincalhar e negligenciar qualquer indício de nobreza existente nele.
Nestas ocasiões, aliás, propícias, para me sentir ofendido, triste, desconsolado, não transpus a linha do orgulho que traçara para mim mesmo, não me sussurrei uma única palavra de conforto e complacência, dizendo que os humilhados serão algum dia exaltados, não me deitei um único olhar que me pudesse fazer entristecer ou reagir. Forcejei por apagar da memória qualquer resquício da ofensa, da agressão, havendo-me com orgulho e convencimento que me pareciam bastantes para resgatar a estima perdida, pareciam sobremodo suficientes para recuperar o amor próprio.  
O orgulho não me faz somente silenciar o coração, não havendo um só instante em que seja eu capaz de revelar uma palavra de carinho, de ternura, de amizade, a quem quer que seja, e, se o fizer algum dia, pode alguém com certeza pensar e sentir que não estou em minhas faculdades normais, podendo inclusive encontrar um asilo de loucos para me internar, deixando-me pelo resto da vida trancafiado lá, se possível com camisa-de-força. O orgulho também me infunde a confiança moral necessária para viver tranqüilo e sereno no centro mesmo de todos os riscos, de todos os perigos.
Com efeito, não sou homem quem pensa e repensa em avaliar bem se devo agir assim ou daquela forma, de ir a este ou aquele lugar, se uma simples atitude vai ou não me prejudicar, simplesmente enfio-me com a cara toda em qualquer situação, mesmo sabendo que dali não sairei com vida, dali não sairia com um mínimo de sentimento na alma. Se uma única palavra irá insatisfazer, aborrecer, estabelecer inimizade, silêncios, e mais o que quer que seja, digo-a com todas as letras e sílabas. Se as digo, sou responsável por elas, seja qual for a conseqüência. 
Aliás, alguém de minhas relações, olhando-me certa vez com bastante acuidade, com muita delicadeza e consideração, indagou de mim se com este orgulho todo que trago em mim não seria um modo de esconder o homem afetuoso e gentil, de muita sensibilidade, de um coração compassivo e generoso. Respondi-lhe, às avessas, que era para esconder o homem fadigado que sinto em estar neste mundo, rodeado de pessoas as mais esquisitas e sirigaitas possíveis, necessitando de amor e solidariedade para que se possa estar próximo a elas. Não compreendeu a resposta e também não estive interessado em explicar com todos os detalhes o que, enfim, estava desejando dizer. Todas as palavras restariam em nada.
Se houvesse insistido muito, diria de outro modo, aliás, irônico, sarcástico, irônico: “O orgulho surgira em minha vida desde a mais tenra”, embora soubesse, de antemão e revezes, que estas palavras são as mais chinfrins, de um sensacionalismo sem dúvida viscoso e pegajoso, de um ignaro escritor, mas, sem dúvida, a idéia seria esta mesma, de mostrar-me ignaro.   
Não me julgo com direito a sonhar outra posição superior e independente, como, por exemplo, uma posição de alguém quem se cuida com extremo apreço, pois que assim evito me sentir angustiado e deprimido após; de alguém quem ama a todos os homens sem sentimentos de preconceito e discriminação, compreendo as suas dores e sofrimentos, confortando-as em instantes de grandes desilusões e dores.
 Creio ser sobremodo percuciente, sobremaneira lícito afirmar que recuso solenemente a largar mão de meu orgulho, porque, a meus olhos não seria uma atitude, mas um vício de meu caráter e personalidade.
O sinal da maturidade seja uma extraordinária vocação para as humildades fáceis. Mas é, sobretudo, uma precipitação de viver que chega às raias da extravagância, um desejo de abraçar o mundo com todas as forças que chega a intensificar ainda mais todos os orgulhos.
Meus momentos de felicidade foram bruscos e impiedosos. A vida também. Compreendi, então, que sou nascido desta terra, onde tudo é dado, para ser tomado de volta. Entendo, então, que serei morto nesta terra, onde tudo fora legado, para ser experienciado e vivido com autenticidade. Nessa abundância de sentimentos profusivos, de emoções vorazes e voluptuosas, a vida imita a curva das grandes paixões, repentinas, exigentes.

O pensamento, a imaginação  de inferno nunca passaram para mim de uma simples brincadeira agradável, de um divertimento amável.     

Manoel Ferreira Neto.  

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