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terça-feira, 24 de novembro de 2015

AO MIRANTE DO OCIDENTE /por Manoel Ferreira/ (24 de setembro de 2013)



À MINHA PORTUGUESINHA MAIS QUE QUERIDA, SARAIVA MARIA, COM MUITO CARINHO!

Fico à janela do meu vazio. O sol tomba em majestade; eu, ao mirante do Ocidente, sinto-me bem... A manhã acaba de despontar no horizonte da vida, o sol promete ser forte, seus raios serão incandescentes, o suor correrá na testa, prenúncio de sonhos que se estenderão, esplenderão pelo tempo, desejando sejam con-templados à luz e mercê da felicidade além das quimeras do verbo de primevas gêneses do estar-sendo, à busca do dia-a-dia dos passos que se dirijam ao longo das pontes partidas, objeto e semente da travessia para o que trans-cende todas as dores e sofrimentos que gratuitamente nos foram dados para a cor-agem de superá-los e suprassumi-los, sermos quem somos, esperando o sorriso de louvores à alma que os concebeu novos nas horas de sono, de descanso das labutas assíduas de ontem, sonhos de que me não lembram. O infinito re-colhe a minha inquietação, balanceia-a em espuma, reconhece-a em espuma branca. Sorrio às furtivas dos sentimentos de alegria que se a-nunciam, além dos universos, ao redor de suas in-finitudes, nada vai mudar os meus ideais, o meu mundo. 
Luz breve, que ec-sistas, onde? fugidio indício que me a-nuncie o meu lugar na vida... As nuvens brancas espelham-se em miríades de re-flexos, multíplice alegria, trêmula, sinais nulos, irrita e nula, os meus olhos tremem. À janela do meu vazio eu. Nítido nulo horizonte linear. Imperceptível une-se ao azul do céu, in-fin-itude ab-soluta in-eks-sistente, na linha in-eks-sistente da separação que os une. A vida toda está aí. Os meus olhos passam por tudo, mortos que falais ainda, vozes nítidas e absurdas no ar, imóveis instantes de outrora... À varanda de minhas fantasias, quimeras, sentado num banco de mármore, as rosas no jardim des-abrochando viçosas e ternas, manhã de novo dia, estendendo-me além das metafísicas da esperança e da fé, tentando encontrar um lugar no auspício de uma montanha, olhando o panorama do mundo, os olhos perdiam-se na frincha
das folhas de um flamboyant do outro lado da rua, o in-finito se mostrando inteiro, nítido nulo o horizonte e já frio, um deus crescia dentro de mim. Estava só, tão cheio de meu nada. No ponto nulo que separava a vigília que se esgotara e a que re-nascia... Mas agora, à distância destes anos, ou à distância nula da morte, agora tudo se amassa em encantamento ou em indiferença ou em absurdo - agora a rua está deserta. Só eu e a luz do dia, só eu e os raios incandescentes do sol. Uma alegria nula. Indício fala no limiar das origens. Fulcro, certeza fora de mim, por mim escolhida, mas ec-sistindo na realidade, conferido com ela, ordenando-a, fixa e apesar de tudo mutável, limite máximo da minha direção, do meu impulso cego e absurdo. 
Acendo outro cigarro. Trago a fumaça à revelia do que me trans-cende dos sentimentos de tempo e verbo de ser, expilo-a ao deus-dará de todas as con-tingências, recupero o lince de meus olhares à distância que vêem miríades de imagens que ensaiam as perspectivas da plen-itude branca da vida, iluminando-a de desejos e vontades do verdadeiro verso do espírito do eterno. Alguém, à janela de suas verdades insofismáveis, sabe a minha linguagem final, a que aflora num susto a aparição do silêncio, a que sagra e a-nuncia os fachos de enigma. 

Estou aqui onde me crio, re-crio,
Onde me invento, faço-me.
De tinta são os meus traços, caracteres.
A folha é de papel, linhas, margens,
As letras são cursivas, in-cursivas, des-cursivas.
Esboço um sentimento que retiro de mim dentro,
Garatujo uma emoção que me perpassa o íntimo
Delineio uma idéia que se me a-nuncia,
Burilo um pensamento que se me re-vela:
Ainda não são os originais, não é a verdade minha.
Re-crio-lhes as bordas e ad-jacências,
Recomponho-lhes a imagem, re-faço a face.
Evoco o abstrato, invoco o transcendente, 
Faço das perspectivas a minha raiz,
Faço dos ângulos o meu ser,
Das linhas a alma, das entre-linhas o espírito.
Farto de mim, distancio-me, fico à espreita,
Constato: na vida ou na arte,
Em carne, osso, caneta ou lápis
Onde estou-sendo não é quem sou, 
Onde sou não é quem estou sendo, 
Onde estou não é sempre, não é eterno,
Onde sou não é absoluto, não é para sempre 
O que sou é por um lince do olhar. 

Temos raiz e temos abertura. Somos como uma árvore, fundados no chão que nos dá força para enfrentar as tempestades. Mas também temos a copa, que interage com o único, com as energias cósmicas, com os ventos, com as chuvas, com o sol e as estrelas. Sintetizamos tudo isso, transformamos em mais vida a nossa abertura. E se não mantemos a abertura - a copa -, o mundo estiola, as raízes secam e a seiva já não flui. Morremos. A dialética consiste em manter juntos o enraizamento e a abertura. Imanentes, mas abertos à transcendência. 
...A não ser que re-torne para plantar na terra a semente que gerei... Meus sonhos são tão poucos os meus sonhos. Minha alegria é tão pouca a minha alegria. Não sou mais que uma combinação incerta de dúvidas e certezas, de acasos e encontros, de amor e de ódio. Em busca de um momento, em busca de uma flor, hei-de fazer-me verbo como se fosse palavra, dar sentido, ser esperança de encontro, colher a mensagem que a primavera deixou. Ombros frágeis são os meus para adormecer no tempo a graça da Criação de Deus. Eis o homem!... Eis Deus!... 
... A não ser que busque a semente que pensei plantar e a guardei, dizendo que não era inda o tempo de os frutos nascerem, era preciso esperar o tempo. Quem sabe?!... Uma vez dissolvida as tensões e livre a alma de suas angústias, depressões, fracassos, remorsos e culpas, pode-se usar tudo o que existe na literatura para mantê-la livre, e talvez até uma forma abreviada de psicanálise. Cada alma desesperada possui um útero de esperança que está pronto a lutar pela realização dos desejos e sonhos, pela sobrevivência e imortalidade...

Águas re-fletindo imagens
Sob raios numinosos do sol
Lírios brancos à mercê de vento suave,
Belga pousado no arame farpado
Da cerca, trinando seu canto,
Nuvens brancas deslizando no azul celeste
Pétala perdida de rosa vermelha sendo
Levada a esmo pelo rio sem pressa de sua jornada.

Sentimentos leves perpassando o íntimo,
Carinho,
Ternura,
Afeição
Ouço o pulsar do coração, extasiado de emoção,
No que em mim trago dentro, as volúpias da alma
Transcendem as elegias do instante de sonho,
Em mim sentindo íntimo, a alegria conjuga versos
A felicidade recita de rimas as fantasias
do amor correspondido,
do amor sentido profundo,
do amor saboreado, 
do amor entre-laçado de corpos
em busca do clímax absoluto e pleno
No que em mim deseja de Verdades
As regências verbais tecem de erudição
A estética do estilo sensível, espiritual
As metáforas conjugam de imagens
A linguística do eterno,
As regências nominais desenham 
No horizonte as perspectivas 
Da linguagem do Ser e Tempo 
E nos interstícios da alma de verbos alucinados,
Esperanças delineiam de perspectivas
Cânticos solenes em uni-versos líricos
Plen-itude de êxtases compõem de estesias
Alhures de sentimentos à busca 
de subjetivas verdades
Algures de desejos de felicidade à busca
do espírito de con-templar o absoluto
sentido efêmero,
sentido volátil,
sentido nítido nulo,
sentido estrela cadente,
sentido vazio
Sonhos do belo, beleza de re-fazendas conjugam
imagens e intuições,
perspectivas e inspirações,
criatividade e percepções,
re-criando da memória o movimento,
literalizando da recordação os instantes,
no poema do espírito a presença viva
do eterno feito amor,
do efemêro feito desejo

do há-de ser feito querência
do simples feito grandeza
do nada feito travessia para o além... 

Travessia do dia e noite, o sono que me vem revelar o desejo de sonhos que se manifestam em imagens. As janelas de guilhotina, de todas as casas, mesmo aquelas em que ninguém mais habita, estão fechadas, e aquelas que, desabitadas, pela ação do tempo, estão caindo, restam apenas escombros, por dentro conduzem inerente à vontade à Cruz do Cruzeiro que mostra à cidade a redenção e ressurreição, e isto é alcançado com o retorno ao amor que fecunda e gera a compaixão e misericórdia. A palavra é o espírito da vida. Deus, Iluminação, Amor, Misericórdia, Ágape, Nous, Theos, Inner, Numinoso, Assunção. Creio que diante de tantas dimensões divinas e humanas, o diamantinense está cheio do Amor de Deus, e por isso mesmo é um povo humano, hospitaleiro, gentil, em demasia cínico, irônico e sarcástico, mas isto devido ao fato de que é um povo que busca, que deseja, tem vontade do Sublime e do Sagrado. Há procissão de águas na moldura da vidraça. Encontro o sentido do amor e da amizade. Numa refração de ouro claro, surge o momento em que palpitam as asas de uma águia, recolhendo a sin-fonia de águas revestidas de silêncio. Surpreendo a sombra e o deserto sob a ambigüidade. A face dos ventos arrasta e dispersa as nuvens, agora tudo se amassa em encantamento ou em indiferença ou em absurdo, e faz sair um brilho nos olhos, que experimenta a vereda, que evoca com as asas ensopadas, o horizonte em que me encontro é a distância verdadeira, sigo-o como cumpre fazê-lo. O sol deita-se e as nuvens azuis colorem os terraços brancos. Afigura-se-me haver distendido uma mola no interior. Parece-me, em princípio, haver sentido uma eclosão, por haver dito com o mais singular, manifestando-me para além do inteligível. Na límpida transparência das águas, a luz segue o itinerário sem limites, sem pressa, sou eu quem aspira e ins-pira a vida, à procura da fonte originária que a busca do mar alcança. Ás vezes penso que o desejo de amor só vive de entrega, com saudades, são estas o rosto da eternidade refletido no rio do tempo, com ternura, e sou eu quem desperto o infinito e o profundo, desejando a Vida. 
O vento, que ainda me ascende as saudades, faz-me ouvir o sibilo num abraço à liberdade, numa saudade que me faz caminhar, ir a busca de quem sou, de mim mesmo, como se fosse eu poesia, a página de um sonho que desejo contemplar, saciar a minha sede de conhecimento.
Calo-me. Silencio-me. Emudeço-me.
No emudecer do silêncio,
Calo-me.
No calar do emudecer,
Silencio-me.
No silêncio do calar-me,
Emudeço-me
Levo um grito sufocado encravado num sentir emudecido. Impossível “re”-tê-lo, “re”-presá-lo por mais tempo: domá-lo. Estilhaço-me. A palavra, se em represa, é um murmúrio de arribas, sussurro de confins; se correnteza, brado, estampido. 
Ando para a luz levando o fardo de desejos, esperanças de ver-me “ser” nas linhas do espírito e eterno, esforço-me para não ruir, seco e falido. Fracas possibilidades de letras reais nos sentimentos verdadeiros, de vozes imaginárias nas emoções re-criadas, in-ventadas, esboçam-se e des-aparecem – quase verto lágrimas pujantes! -, roendo entranhas, re-vezando mordaça, e a escuridão em que tateio o trajeto arrasta correntes, mas sigo na busca des-esperada de me ver sendo. Cada dia debulho uma letra de minha fala, perco-a nos sonhos, e dou um passo para a distância. Breve me perderei no horizonte.

Emudeço-me no silêncio de calar-me.
Silencio-me no calar do emudecer.
Calo-me no emudecer do silêncio.

Uma sílaba do que digo se des-garra, rolando pelo chão que não é de giz, mas de grafites em pó, gota de sangue de-(r)-ramado que não voltará à veia. Imagino-me numa estelar distância no branco da lua longínqua, nos raios fortes do sol. Ensaio o som uni-versal de um sorriso.
Sou voz de olhares, ímpeto de pensamentos de ser, liberdade, de espírito. Sou desejos de encontro, de sonhos e utopias do eterno do espírito das linhas. Sou esperança de amor, entrega, do verbo no espírito das linhas eternas. Sou espera, movimento, gota de chuva, lufada de vento, lua boiando na noite, risco de estrela cadente. Sou a mão que delineia e burila letras, sílabas, sons, que desenha os símbolos com esmero. Sou tear na madrugada fabricando desejos plenos de espírito, de linhas eternas. Sou eterno prisioneiro das linhas brancas que desejo preencher com letras de esperanças, dores e sofrimentos, de verbos de fé, felicidade. Sou a idéia de uma águia pairando sobre um abismo. E quando sou a idéia, sou a águia. Sou pernas varando o tempo. Sol no rosto e um fardo colorido, a hora que chega e se perde, mas re-torna com nova força. Sou o barro de minha terra na sola de meus sapatos, poeira no peito deles. Sou nos recantos e auroras o composto de marcas sombrias. 

Emudeço-me. Calo-me. Silencio-me.
No calar do silêncio, emudeço-me.
No emudecer de calar o silêncio, silencio-me.
Silencio-me. Emudeço-me. Calo-me.

Ando em busca da estrela que brilha na madrugada, do sol que raia na manhã de nuvens brancas e azuis. Caminho pisando campos, trilhando veredas e planto em cada canto que passo a verde esperança da flor de cactos. Nos múltiplos úteros do chão, apanho o cristal que germina. As mãos unidas em concha colhem água em qualquer fonte e afagam o broto que nasce nesta fixa floração.
Escuto o cantar do galo, o cão ganindo no escuro, pio de pássaro nas moitas. Descubro no boi berrando, no relincho dos cavalos, no zurro dos jegues, no coaxar dos sapos, num lobo uivando na serra, um som recente, neste tempo que varia como vento mudando o rumo quando a chuva se a-nuncia. Vou aprender no campo o ofício das mãos que lavram as letras e verbos e vão perpetuando os desejos do sublime, a vontade do eterno, a esperança do imortal. 
Vou à procura da estrela que brilha na madrugada. O poeta borda a palavra, verso a verso, alinhavando as estrofes de sonhos, utopias, quimeras e fantasias, os ritmos de sentimentos de esperança, amor, fé, a musicalidade dos desejos e da liberdade de ser, do ser-com-o-outro, do ser-para-o-outro, do si-mesmo. O escritor tece com o amor do tecelão os fios no tear dos sonhos e das utopias, numa inventiva criação de idéias e pensamentos. Trabalho eu, poeta/escritor, o sonho imortal que me faz transeunte sem peias da livre caligrafia. O poeta pesca a palavra da própria entranha como se o corpo fosse o açude, e o peixe, o verso. O escritor expele a palavra a todo sentimento e idéia de uni-versos de liberdade, a toda emoção e pensamentos de horizontes de encontro com a Vida e Amor. A palavra e o poeta germinam da mesma cova, e, juntos, vão no mesmo passo, às vezes em veredas diferentes, às vezes em caminhos mesmos, porque um no outro se completa, multiplica-se, esvazia-se. 

Calo-me. Emudeço-me. Silencio-me.
Silencio-me no emudecimento do verbo calar.
Calo-me no silenciar do verbo/carne do emudecer.
Emudeço-me no verbo do silêncio.

Caminho nos pensamentos, esbarrando-me remotos dias. Reagrupo-me às sombras; retrilho uma cena qualquer, viajo nos detalhes dos trajes, cores, conversas, a eternidade das mãos troteando o corpo... Desvairado, rendo-me à ficção da noite, perdida no irreversível. Enlouquecido, remedio-me das mentiras da escuridão à luz dos postes. Disperso, rendo-me à realidade da aurora nas entranhas de uni-versos a serem construídos. 
Veredas... Fogo de bala, travessia, curiangos, aves pretas, flor de pau, cascalho solto, faísca de ferradura. A noite é só tocaia, um descuido é perdição, cachorro late-mordendo, cobra dá bote e esconde, burro coiceia e refuga: “Viver é muito perigoso”. Grito, perdido na morte, doce riso, amargo fim, viver é pré-liminar à cova. Passo curto, passo certo: Travessia. 
O que me pergunto é: quem em mim é que está fora do eterno prisioneiro das linhas? quem em mim é que está fora até de pensar?
A ressonância da pá-lavra per-corre soberana, con-tornando muros e montanhas, escoando em ondas. Risco, arranho, demulo, penetrando alvos. 
No miolo da note, outra noite acontece, e o que era transluzente, aos poucos escurece como ondas nebulosas, sufocando, envenenando, roubando o nascer do dia, o re-nascer de outras palavras, horizontes e uni-versos. Meu posso é ponto, meu corpo, fonte. Em que estrela aportará meu sonho. 
Viajo no tempo que voa nas asas da imaginação. No momento presente, sei o que foi, o que era, o que vai ser, o que será. Só não descubro o artifício que me contorce nesse ponto/uni-verso onde me encontro passageiro das quimeras, sonhos, fantasias, utopias. O próprio ser que me con-figura sangra ferido: “viro longe no mundo, piso nos espaços, faço todas as estradas”. Num passo de magia a terra vira, torna-se vida nas mãos de lira das linhas e espírito eternos. 
Restaram-me equívocas pétalas das palavras, diariamente nascentes, para o nada obliterante do não-visível. O tempo se faz devagar, tateando símbolos. Roucos ruídos, sugerindo amor às linhas eternas do espírito e das páginas de sonhos e quimeras, penetram meu silêncio. E a flor de meus sonhos de ser segue transcolorindo a tela vácua do horizonte, sem saber que ingratos olhos distorcidos na distância são labaredas extintas, avesso riso, in-verso amor nas versificadas sedes de encontro e vida, metrificadas fomes de liberdade e ressurreição, ritmadas ilusões de con-templar o ser à luz do verbo, in-versa distância nos des-lustres de ausência: (in)afeição que crio e nela própria des-orvalho o re-verso lado da luz. 
Cal0-me.
Emudeço-me.
Silencio-me.
Emudeço-me no verbo/calar.
Calo-me o verbo/emudecer.
Silencio-me no verbo/calar. 
Calar o verbo.
Emudecer o verbo silenciar.
Silenciar o verbo calar.

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